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Sandra,
Sempre no meu coração...
Espaço aberto, janela escancarada para o Mundo que se adivinha para lá do mar azul que se espraia ao longe, feito de palavras, de ideias e de imagens, belas, diferentes, exóticas como o país de onde escrevo...
Viajar por Timor-Leste é um regalo para os olhos! Porque Timor é bem mais bonito do que se imagina e, a cada curva de estrada, a paisagem surge diferente. Esta foto foi tirada a caminho de Aileu, a poucos quilómetros de DÍLI. Uma cidadezinha fresca, limpa, agradável.
Desde miúda que gosto do nevoeiro, tão raro em Díli. Na montanha, gosto da sensação de ver chegar aquele manto branco que, muitas vezes atravessa o sítio onde estamos, entra pela janela da casa e nos deixa sem ver um palmo em frente do nariz... Claro que digo que gosto porque os dias em Timor-Leste são sempre muito luminosos e o nevoeiro, quando não em dias seguidos, é sempre algo de novo. ..Se vivesse no Tata Mai Lau, que está quase sempre enevoado, se calhar não iria achar muita graça...
Receita de Ano Novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
PS. Amanhã, quando a Internet estiver menos lenta, adiciono a foto...

"Que é o Natal? É a ternura do passado, o valor do presente e a esperança do futuro. É o desejo mais sincero de do que cada xícara se encha com bênçãos ricas e eternas, e de que cada caminho nos leve à paz."-Agnes M. Pharo
"Sugestões de presentes para o Natal: Para seu inimigo, perdão. Para um oponente, tolerância. Para um amigo, seu coração. Para um cliente, serviço. Para tudo, caridade. Para toda criança, um exemplo bom. Para você, respeito." -Oren Arnold
Éramos 12 irmãos. A minha irmã Dora, a mais velha, partiu cedo. Tinha apenas 50 anos. É saudosamente recordada amiúde por todos nós.
Gostamos de estar juntos, adoramos trocar impressões, conversar e, volta não volta, ensaiamos verdadeiros debates sobre temas acerca dos quais cada qual tem uma ideia muito própria. As nossas tertúlias fazem-se sempre à volta de uma mesa onde tanto pode estar um café como uma lauta refeição ou coisa nenhuma. Depende dos tempos. E tempos houve em que, os meus irmãos e demais família que se refugiaram no Timor indonésio em 1975 se reuniam à volta de uma mesa vazia e, de entre eles, os que depois se juntaram aos que já se encontravam em Portugal se encontravam vezes sem conta no Vale Jamor - onde viviam os refugiados timorenses – à volta de outra mesa ora sem coisa nenhuma, ora com um sucedâneo de café ( que o dinheiro não chegava então para o café puro...) ora com um franganito com imensa batata e arroz para umas 30 pessoas. Mas, quando nos juntamos e não há problemas de maior, divertimo-nos!
Nestas últimas semanas, temo-nos juntado sem alegria e não à volta de mesa nenhuma nem mesmo para debater ideias ou simplesmente conversar sobre as triviais coisas do quotidiano. Os nossos dias são ora partilhados entre o trabalho, idas breves a casa e permanências mais longas – tanto quanto nos é permitido pela instituição - ao Hospital Nacional Guido Valadares.
O nosso irmão Manuel, cujo sorriso aberto transmite a bondade do seu carácter, está bastante doente. Luta corajosamente contra a doença. Traz-nos, a mim, aos meus irmãos, com o coração na boca, tão grave é o seu estado de saúde. E como desejamos que ele melhore!
Há muito tempo que não posto nada. Mas ontem, ao ler a mensagem que deixou a Eurídice fiquei tão sensibilizada que entendi que devia voltar a marcar presença do lado de cá do Mundo, da terra que o Sol em nascendo vê primeiro...
Não prometo escrever muito porque o tempo é curto. Por outro lado, nem sempre a disposição é das melhores. Como agora, por exemplo, que se aproxima o dia de Finados e a minha alma estremece de saudade e de dor pela ausência dos que partiram desta Vida. Depois, virá o dia 7 de Novembro, dia em que invariavelmente caio numa tristeza profunda faça sol ou chuva... porque no dia 7 de Novembro a Sandra faria anos. Entre as memórias das festas felizes da sua infância juntam-se outras mais dolorosas dos tempos em que sabia que aquele dia iria repetir-se por muitos poucos mais...
As cores de fim de tarde são belas mas enchem-me de uma angústia inexplicável. Bom, verdadeiramente inexplicável, não. Não será bem assim...A angústia é que surge quando menos espero.

A minha amiga Ivone pergunta-me como estou.
Mal, respondo eu. E triste, porque nunca me passou pela cabeça que o meu país do Sol Nascente pudesse ser palco de um acto tão violento quanto desnecessário. Envergonhada, embora sem conhecer nem ter nada em comum com os autores de tão vil acto. E, mesmo acreditando que foram timorenses, também quero crer que eles foram simples executores ao mando de alguém que ainda permanece na sombra...
Talvez seja uma forma de auto-defesa esta de pensar que alguém está por detrás disto... É que não é nada fácil engolir o orgulho que sinto – comum, aliás, a todos os timorenses - por aqui ter nascido e concluir que, afinal, entre nós os há tão loucos e insensatos iguais ou piores aos de outros sítios igualmente loucos...
É deixar passar os dias e talvez que um dia destes volte a acreditar que somos uma povo de excepção!
No último dia do ano pára-se um pedaço, reflecte-se sobre a vida e fazem-se bons propósito para o ano que vai chegar. É assim ano após ano; erramos, corrigimos..., voltamos a errar num claro sinal de que nem sempre aprendemos com os nossos erros… Mas, porque errar é humano, o que importa é recomeçar desejando sempre fazer mais e melhor. Às vezes até conseguimos! E se não conseguirmos, voltaremos a tentar!
E às vezes, tudo parece intrincado como os vários troncos desta árvore. Mas, veja-se, lá mais ao fundo, o Sol brilha!
No limiar de mais um ano, faço votos de que 2008 seja portador de tudo o que de bom haja e que cada um de nós deseje.
No fundo, no fundo o que queremos é ser felizes! Por isso aqui ficam os meus desejos de que o ano de 2008 traga uma mar de felicidade para todos! Felizes com paz, saúde e muito, muito amor!

À minha filha Sandra Sofia
No azul do céu, por detrás da nuvem, do Sol, da Lua, das estrelas... No canto do pássaro, em cada amanhecer, no perfume da flor, por entre a ramagem das árvores, nas ondas do mar, no rumorejar da nascente, no sorriso de uma criança. Perto, distante... e sempre no meu coração vive suave, doce, rebelde, frágil, belíssima Sandra, minha princesa, milha filha...
Tanta saudade, Sandra Sofia!
Quis o destino que o dia do seu nascimento fosse também o dia da sua partida para uma outra vida!
O nosso pai foi um grande homem. Marcou-nos para o resto da Vida. Não será demais dizer que o nosso pai burilou o nosso carácter. Ensinou-nos o valor de cada sentimento, a relatividade dos bens materiais e a capacidade de enfrentar qualquer dificuldade.
Com ele aprendemos a valorizar a família, a respeitar o próximo e a defender com honestidade as nossas convicções.
Amou profundamente a minha mãe, tratou-a com o máximo respeito e também por isso nos deixou como legado a certeza da igualdade homem-mulher.
Corajoso, determinado, leal, honesto, humilde, sábio e possuidor um coração do tamanho do Universo, assim era o nosso pai.
Os nossos pais fazem-nos falta. Quando vamos à Fazenda Algarve, sentimos que aquelas cadeiras onde o papá e a mamã se sentavam olhando-nos ou conversando connosco serão sempre as cadeiras deles. Não os vemos mas sabemos que estão lá. Lado a lado, como sempre estiveram enquanto foram vivos.
No dia em que passa o 106º aniversário do seu nascimento e o 30º da sua partida, um beijo para o meu pai.
Ainda não andei por lá, mas sei que é ali que se prepara o sal que não é tão salgado quanto o sal normal de Portugal ou da Austrália, por exemplo.
Da Costa da Caparica pergunta-me o amigo Luís quem era o homem que deu o nome ao Liceu.
O Dr. Francisco Vieira Machado foi um dos primeiros directores (ou gerentes) do BNU, o Banco Nacional Ultramarino de Díli. E enquanto cá esteve resolveu fundar o Liceu primeiramente denominado Dr. Vieira Machado.
Só o vi uma vez quando, passados muitos anos sobre a sua primeira estada em Timor, voltou no âmbito em visita de trabalho ao BNU. Era então um senhor de cabelos brancos e foi recebido com as honras devidas no Liceu. É só o que sei do fundador do liceu por onde passaram quase todos os grandes nomes da Resistência Timorense.

O Liceu Dr. Francisco Machado traz-me recordações felizes de um outro tempo,de quando apenas os dias luminosos da juventude e da vida de estudante eram ensombrados por nuvens cinzentas protadoras de uma nota negativa, uma falta disciplinar e o respectivo “castigo” em casa. Este último era bem pior porque ficávamos – eu e os meus irmãos – confinados ao espaço do quarto e impedidos de participar nas refeições e, consequentemente, nas conversas que, diariamente, juntavam a uma grande mesa, os pais, filhos e netos.
Hoje já cá não estão os pais nem a irmã mais velha e alguns netos partiram antes do seu tempo.
Dos tempos sem sombra de partida de ninguém bem como dos ausentes ficou-nos profunda saudade
E das reuniões do tipo assembleia geral de família ficou-nos o hábito do convívio familiar com conversas infindáveis sobre tudo o que nos apetecer discutir, em conversas que duram horas a fio entre uma chávena de café, uma banana frita, uma feijoada, muito riso,alguns momentos de reflexão, uns de euforia, outros de melancolia, outros de exaltação... tudo saudavelmente partilhado!