quarta-feira, junho 06, 2007

Não gosto muito de expor a minha família e menos ainda de falar dos meus pais que partiram desta Vida há muitos anos, porque não quero correr o risco de que surja alguma palavra desagradável contra eles e eu, que não vejo a cara de quem pode desferir a má palavra, não me sinto à vontade para responder enfrentando quem está, invisível, do lado de lá para os defender – como é, aliás, minha obrigação – a eles que já não fazem parte desta vida.
Mas, hoje, não resisto a fazê-lo.
Esta tarde, quando tive de dizer alguma coisa sobre a intervenção da mulher timorense na política e, de uma forma geral, na vida pública, não pude deixar de recordar a minha Mãe com justificado orgulho pelo exemplo que nos deixou, a todos, filhos e filhas!
A minha mãe era uma senhora. Impunha-se pelo porte altivo, normal nas mulheres de Leste. Dela guardo a imagem de mulher determinada, segura, calma, discreta e independente.
Gostei de poder recordar a sua assumida independência. Gostei muito, senti-me inundar de indisfarçável orgulho pelo facto de ela, a minha mãe nascida em Watalibu, Venilale, nunca ter tido necessidade de renunciar à sua cultura local, às suas raízes, só por ter casado com o meu pai, malai mutin do Algarve. Foi bom recordar o português muito peculiar que a minha mãe falava aprendido apenas quando foi viver com o meu pai.
Soube-me bem evocar os bons guisados e caldeiradas de cabrito que ela preparava como ninguém, aprendendo a arte da cozinha portuguesa com o meu pai, ao mesmo tempo que fazia as catupas, as cadacas, os batar daan à moda timorense…
Gostei de partilhar a história de ela ter tido 14 filhos, os mais velhos dos quais chegaram a este mundo com a ajuda do meu pai que assistia aos partos.
Soube-me bem, muito bem, dizer que a minha mãe tanto se sentia à vontade a tratar da sua horta onde trabalhava mano a mano com os empregados, como numa festa formal do palácio do governo onde as demais senhoras se admiravam que aquela mulher vinda de recônditas paragens de Timor soubesse acompanhar tão bem o meu pai!
Claro que as senhoras não podiam adivinhar que, entre o meu pai e a minha mãe, não havia a obrigatória submissão da mulher ao homem… os meus pais acompanhavam-se mutuamente, andavam lado a lado, tinham os mesmos direitos e as mesmas obrigações! Faziam uma excelente equipa e, por isso, nunca nos ocorreu, a nós, mulheres, pensarmos que éramos menos hierarquizadas na família relativamente aos meus irmãos apenas por sermos mulheres!
Pelo contrário. Desde sempre soubemos que éramos iguais, independentemente do sexo! Tivemos a mesma educação, as mesmas facilidades e iguais dificuldades, o mesmo carinho e, obviamente, éramos igualmente castigados.
Saí do encontro com o meu ego muito acarinhado mas, ao mesmo tempo, cheia de saudades dos meus velhos pais. Uma saudade imensa que perdura não só porque os filhos têm sempre saudades dos pais quando estes desaparecem mas também pela referência que são nas nossas vidas. Deixaram-nos um legado inestimável, princípios, ensinaram-nos a agir sempre com simplicidade, determinação e correcção, a sermos leais, honestos e humildes. A não termos medo de defender as nossas ideias, a não desistir, a respeitar o próximo como a nós mesmos, a sermos solidários!
E antes que uma lágrima que sinto a bailar nos olhos me venha dificultar a escrita, termino enviando para o além longínquo onde eu sei que ambos continuam estando atentos às nossas vidas um grande e saudoso beijo ao meu pai e à minha mãe! Melhor, um beijo ao papá e à mamã!

domingo, maio 27, 2007

Um dos sonhos da minha juventude era viver numa casa de Lospalos. Claro que não pensava sequer que era necessário ter ligeireza suficiente para subir e descer a escada sempre que fosse preciso.
Só me imaginava lá em cima, segura, olhando o Mundo, reflectindo, contemplando, sonhando! Tanta coisa que me passava pela cabeça!
Agora que “já sou velhinha”, - sim, eu sei, não preciso exagerar… - continuo a gostar de casas de Lospalos que acho belas, elegantes, altaneiras… mas fico-me por aí…
O pé já não é tão ligeiro e a balança está avariada, de certeza!, porque acusa uns muitos quilos a mais dos que eu tinha noutros tempos…
Hoje prefiro ter os pés bem assentes na terra, mas não deixei de contemplar, olhar o Mundo, reflectir… E o sonho? Claro que continuo a sonhar, faço-o acordada, vezes sem conta! Liberta de angústias, crio asas e vou voando por aí onde me leva o pensamento!

sexta-feira, maio 25, 2007



Não me lembro se já publiquei ou não esta foto. Mas, sendo ela ilustrativa de que é possível, em Timor-Leste, ser tão transparente como as límpidas águas do mar, presumo que ninguém se importará com a repetição...
Através desta foto também se percebe que há pé até bem longe da praia. Isto explica a razão pela qual nunca aprendi a nadar... O que também não abona nada em meu favor, reconheço, porque, mesmo garota, tinha obrigação de ver mais longe e saber da profundeza do mar...
Também posso arranjar outra explicação para o facto de não saber nadar. É uma desculpa esfarrapada mas deve dar para aliviar a minha frustração...
Então, é assim: recordando que o nosso pai não gostava muito que as meninas mais novas da sua extensa prole - Gabriela, eu e Natália - andássemos fora de casa por muito tempo, tínhamos de estar ao pé da praia de forma a ouvir quem nos viesse lembrar que eram horas de voltar para casa... Se eu soubesse nadar, ia para bem longe, não ouvia chamamento nenhum e arriscava-me a levar umas palmadas no rabiosque.
Claro que é mesmo uma explicação esfarrapada porque, mesmo estando por perto, às vezes fazíamo-nos surdas, mudas e cegas! Aconteceu um dia qe, mesmo estando sentadas no areal da praia de Lecidere, fizemos de conta que não víamos nem ouvíamos o pobre do Paulo que repetia vezes sem conta serem horas do almoço, etc, etc..,
Estávamos a conversar tão animadamente que não nos apetecia nada voltar para casa... Fizemo-nos desobedientes e convencemo-nos de que já éramos independentes; só voltámos quando nos apeteceu, sem nos preocuparmos sequer que havia uma família inteira que queria almoçar e não o podia fazer en quanto todos não estivessem à mesa.
Na varanda, a senhora nossa mãe estava sentada fazendo de conta que não era nada com ela. O nosso pai lia, ou fingia ler, o jornal, creio que o Diário Popular que chegava semanalmente de Portugal

Mal nos viu, retirou o relógio do pulso para não nos magoar... Percebemos o que ia acontecer e pusemo-nos a jeito. Nós, as três mais novas, perfilámo-nos e cada uma de nós levou à vez uma palmada no rabo!
Doeu, oh se doeu! Chorámos que nem Madalena arrependida!
Mas o nosso pai deve entretanto ter-se recordado dos seus arroubos da juventude e, como prova de que já tudo tinha passado, mal viu passar o António vendedor de gelados da casa Vitória, adoçou-nos a boca e refrescou-nos os ânimos com uns quantos gelados fresquinhos...

quarta-feira, maio 23, 2007


Cada timorense deve dizer com os seus botões: Não me sinto à deriva porque, tal como este beiro aparentemente esquecido num canto do porto esquecido de Com, tenho a sorte de ter Timor como meu porto de abrigo, apesar da loucura e da leviana e irresponsável atitude dos homens... "
Ai, Deus!

domingo, maio 20, 2007


Se a situação fosse de total tranquilidade, metia-me no carro e ia passar uns dias a à montanha, nesta casinha perdida por entre o verde da paisagem. Mas, quando menos se espera, surgem novos incidentes. E, por mais que se queira interiorizar que a situação vai melhorar, acontecimentos como os de hoje, em dia de festa nacional, fazem-nos pensar que o melhor é ficarmos quietinhos... não vá o diabo tecê-las...

quinta-feira, maio 17, 2007


Pose vaidosa de Dondoca, cadelinha cor de mel, delambida, conquistadora…
Lá mais atrás, os cães olham-na do canto do olho… qual deles conseguirá a atenção da delambida Dondoca?
Dondoca rebola, levanta-se, ensaia uma aproximação, percebe que “são muitos cães a uma cadela” e arrepende-se. Vira-lhes as costas, afasta-se e deixa o Liurai lambendo o Pé-de-Vento…
Tudo ficou bem e esquecido até que a Dondoca entrou de novo no cio.
E não houve pose, nem sedução, nem lambidela. Menos ainda fotografia.
Tanto cão! Selvagens! Dondoca assusta-se, foge, esconde-se debaixo da mesa. E os muitos cães a uma cadela, perdidos de desejo, frustradas as expectativas de macho melhor entre os melhores, ladram furiosamente, atacam-se, ferem-se, uivam de dor, assustam os cahorrinhos e metem o rabo entre as pernas quando, farta de tanto barulho, resolvo dar-lhes um banho de água bem fria para lhes esfriar os ânimos e fazê-los cair na real!
Caramba, até a cadelinha Dondoca precisa de elegância na investida!

segunda-feira, maio 14, 2007

Uma das três lagoas de Taci Tolu e a casa típica ao fundo que deu guarida ao Papa João Paulo II quando visitou Timor em Outubro de 1989.
Mais tarde, em 2002, foi neste espaço que se realizaram os festejos da independência.
Já no tempo da independência, ali se deu o “milagre” com intervenção de mão humana do “aparecimento” de Nossa Senhora…
Não sei se por uma se por outra razão, ou pelas duas razões – sem contar com o milagre que deixou de o ser uns dias depois da ocorrência -, Xanana Gusmão pretendia que aqui nascesse o jardim da paz.
Em seu lugar ainda só existem ervas daninhas que são o alimento dos cabritos que ali andam à solta, corridas de motos e pares de namorados.
A casa típica está deteriorada. E o marco com o nome de João Paulo II desapreceu.
Mas, enfim, há que ser generoso e procurar entender. Afinal, sem paz, não podia haver jardim do mesmo. Pode ser que seja agora…

domingo, maio 13, 2007

Tebe numa noite de luar



de MGabriela Carrascalão
Dili, Março de 2003

Loi Sa’e
é aparição
donzela
dengosa
Vaidosa!
o monte
desce
silhueta ondulante,
a lua ilumina
é convite para o amor!
O batuque grita

de ritmo marcante....
mais alto...
Loi Sa’e geme ...
o mancebo encanta
Dança !...
ao ritmo do batuque
Loi Sa’e, luz da lua
toda ela se mexe ,
é o eco do bamboleio
seu corpo serpenteando...
é som do roçar dos tais

xiu! xiu! assa xiu ! assa xiu!
Loi Sa’e, luz da lua
Dos suspiros em ais!
Loi Sa’e....
O mancebo desafia
dança seu corpo
serpente sensual...
seus seios acaricia ...
ao ritmo do batuque
Loi Sa’e!
À luz da lua
O mancebo espia
donzela
dengosa !
Tebe à luz do luar!

É noite para amar!....

PS: A minha irmã Maria Gabriela é uma excelente pintora e jornalista.
Há uma série de anos que anda a prometer tornar públicos os seus poemas. Será desta?
Em estreia mundial, aqui fica um dos quadros pintados em Timor em 2003 e um belo poema! Beijinhos para a minha mana pintora-poeta!

sábado, maio 05, 2007

O arco-íris cortando os céus será o prenúncio de que as coisas vão mudar em Timor? Será que vai voltar a paz, vamos ser todos felizes; será que as catanas, as flechas, as armas serão enterradas muito, muito lá no fundo, num buraco onde ninguém mais poderá chegar; será que vai haver trabalho para todos? Será que, vai acabar a discriminação e vamos sentir-nos todos cidadãos deste país? Será que os timorenses vão acordar e vão dar importância à unidade tão necessária para reconstruir Timor?
Estarei a sonhar demasiado cor-de-rosa? Estarei a ser ingénua?
Tenho para mim que vale a pena sonhar... vou continuar..
.

quarta-feira, maio 02, 2007



Um dos meus sonhos prende-se com a construção de uma casita típica em Venilale, a terra da minha mãe. Os campos são assim verdes... O clima é temperado, corre sempre uma brisa suave, fresca...
Em Venilale, no sítio de Waitalibu, todos falam, ainda hoje, do grande amor entre o meu pai e a minha mãe! Um amor sem barreiras de mais de cinquenta anos a que só a morte pôs fim...

quarta-feira, abril 25, 2007


Nem tudo é tão tranquilo como o mar. Este mar que se vê na foto.
O mar está aqui, a dois passos, oferece-se de bandeja, a qualquer momento a todos nós. Mar azul, por vezes esverdeado . Mar profundo lá bem ao longe da praia, de águas límpidas, mornas... Um regalo para os nossos olhos, para os nossos sentidos. O problema é que há tanta outra coisa menos bela, menos transparente, a precisar que tenhamos os sentidos todos alerta! Quem pode, pois, quedar-se em serena contemplação e deleite da Natureza?
Mas, porque o Sol brilha, os pássaros cantam e as crianças riem e brincam despreocupadamente, é bom que inspiremos fundo e passemos a acreditar que as coisas vão mudar. Têm de mudar! Para melhor, claro. Porque, como diz a canção "pr´a pior já basta assim..."

domingo, abril 15, 2007


Quando andamos pelas estradas percorrendo o país em todas as direcções, é inevitável que nos perguntemos amiúde a razão pela qual não conseguimos viver tranquilamente, gozando as maravilhas que Deus nos deu, em cada curva, em cada canto da estrada.
Timor é realmente muito bonito. As cores, as montanhas inacessíveis, as planícies , o mar, tudo isso é Timor. À frente dos nossos olhos. À nossa mercê. Era só esforçarmo-nos um pedacinho, trabalhar q.b. e estaríamos a fazer de Timor-Leste um país de sonho.
Mas não, preferimos andar uns contra os outros, meio mundo enganando outro meio mundo. E nesse afã de destruição do outro -que é tão só o nosso próximo! - , nem sequer temos tempo para parar, admirar, deleitarmo-nos com a dádiva divina que é Timor-Leste!

segunda-feira, março 19, 2007


Eu bem queria que o tempo fosse elástico!
Mas, não sendo, que remédio haverá senão fazer o que o tempo nos permite?
Também queria ter o dom de resolver tudo com um simples estalar de dedos... mas, não tendo, nada mais farei senão reduzir-me à minha condição humana e resolver as coisas uma a uma, devagar, de acordo com o tempo que tenho... Hoje tive tempo para fotografar o meu jardim, bem mais verde por causa das chuvas! Valeu a pena!


segunda-feira, março 12, 2007


Há pouco telefonei à minha amiga Ana do Castelo que faz hoje anos. Hoje, dia 11, aí em Lisboa, porque para mim, fez ontem. Aqui em Timor já passámos umas quantas horas sobre o início do dia 12.
Não sei como terá sido o dia do seu aniversário, agora que ela deixou de trabalhar e que a crise económica se mantém em Portugal.
Se eu fosse a Ana, dava uma prenda a mim mesma e aproveitava para descansar o máximo dos mais de trinta anos de correria casa-trabalho-casa…
A Ana tem dias. Nuns, está muito bem disposta. Noutros, é melhor nem falar com ela, absorta que fica com os seus pensamentos, pensando nos problemas e procurando interiormente a melhor de resolver estes.
Agora, esquece lá os problemas e mantém-te bem disposta. Conta anedotas, telefona-me que eu gosto muito de saber notícias tuas e visita meio mundo para te distraíres. Mas, com a distracção não comas demasiados doces! Cuidado com a linha!!!

Beijinhos


quinta-feira, março 08, 2007


Quando esta foto foi tirada, eu estava –ainda! – convicta da vitória dos timorenses sobre a pobreza, a corrupção, a miséria, o analfabetismo, a arrogância, a injustiça, a mentira … Acreditava na unidade, na boa vontade, no esforço comum da reconstrução…
Achava que tudo o que era mau não passava de sequelas da ocupação…
E daí o quase ostensivo sinal de vitória com ambas as mãos levantadas!
Raios, como me chateia de ter engolir ter-me enganado tanto!

terça-feira, março 06, 2007

Os dias-sempre-iguais-cheios-de- actos-violentos, deixam-me intranquila, triste e envergonhada.
Às flores do meu jardim, mal lhes deito um olhar….
Perdida e cansada, tal como perdidos e cansados andam todos os timorenses que estão fartos da crise e da violência, só me apetece gritar: CHEGA!!!

quinta-feira, março 01, 2007

Um beijo para a minha filha Sandra Sofia. Onde quer que ela se encontre, sabe, de certeza, que está viva no meu coração... Sempre!

Partiu, fez ontem 12 anos. Ai, como a saudade aperta!

segunda-feira, fevereiro 26, 2007


A foto do post anterior é realmente de Laga.Esta, é de Manatuto. Com as chuvas, talvez a montanha tenha perdido o castanho e esteja mais verde. Talvez, digo eu, em adivinhação...


Partilhar afectos e recordações sabe sempre bem. Mas, nem sempre existe tranquilidade para o fazer.
Esta última semana foi tão violenta que me esqueci de postar.
Cansa estar sempre a falar de crise, de sustos, de violência!
Também cansa estar 20 minutos à espera que se faça o download da foto ...

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Uma das vezes em que andei a passear pelo leste do país – quando fazia parte do programa de fim-de-semana viajar pelo país para melhor o conhecer -, passei por Klalerek Mutin, uma aldeia minúscula, pouco populosa. Ali houve um massacre nos tempos da ocupação indonésia, tendo morrido a quase totalidade das pessoas.
Deparou-se-me esta árvore, de copa redonda e, de entre a sua folhagem, irrompeu altaneiro o coqueiro...
Às vezes, na nossa vida, é assim. Por muito que queiram esmagar-nos, conseguimos sempre força para romper as dificuldades...

Ps: Não há nada como ter leitores bem informados e cultos. Obrigada, Augusto Lança, pelo rigor. É mesmo um akadiro!


sábado, fevereiro 17, 2007


A praia é linda, a água recomenda-se. Era assim em 2004 quando a foto foi tirada. Deve continuar tudo igual.
Eu é que não vou à praia, nem aqui em Díli nem fora da cidade, há quase um ano! O tempo que dura a insegurança.
Bem, tristezas não pagam dívidas e, o melhor, é deixar o olhar preso à paisagem ainda que através de fotografia… É pouco, quase nada mas, nas actuais circunstâncias, é o que se pode arranjar.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Chove a cântaros e o barulho da água a bater no telhado de zinco a que se junta o ruído dos trovões é ensurdecedor.
Apesar do barulho, a água que cai con tanta força provoca uma sensação agradável, porque diminui o calor característico desta época do ano, a poeira desaparece e as plantas tornam-se mais verdes.
Quando eu era mais catraia, eu e os meus três irmãos mais novos, Quico, Gabriela e Natália e os nossos sobrinhos mais velhos, adorávamos andar à chuva. Ficávamos molhadinhos que nem uns pintos mas, enquanto a chuva caía ninguém nos apanhava em casa, entretidos que andávamos com a paródia que, por vezes, também podia acontecer na praia. É óptimo estar no mar ao mesmo tempo que chove!
Não me lembro, de nessa altura, algum de nós apanhar um resfriado ou adoecer da garganta... Mas, se fosse hoje, em que a idade é outra (bela maneira de admitir que estamos a caminho da terceira idade, não é?) era trigo limpo que, umas horitas depois, haveríamos de estar com 40º de febre...
Ai, como o tempo passa!


quarta-feira, fevereiro 07, 2007

O Liurai é que a sabe toda!
Todo esparramado, ao fresco, sem ninguém a incomodá-lo...

Ah!, santa Preguiça!

A propósito, preguiça de cão será igual a preguiça de gente?



segunda-feira, fevereiro 05, 2007


Em Timor, estamos na vida como este beiro . Encostados. À espera…

quinta-feira, fevereiro 01, 2007


Há flores de todas as cores e de muitas variedades. Estas, encontrei-as no alpendre de uma casa pobre de uma aldeia perdida, lá para os lados de Viqueque.
Às vezes sabe bem recorrer a estes estratagemas simples para nos sentirmos um bocado mais reconfortados com a natureza do ser timorense. É que se há tempo para plantar uma flor, então é porque somos, ainda que num canto recôndito, bem escondido, do nosso eu, seres sensíveis e amantes do belo.
Estou mesmo a precisar de fazer festinhas ao meu ego magoado...



sábado, janeiro 27, 2007


Se eu fosse uma desportista exemplar e soubesse mergulhar e nadar, poderia ver as belezas do fundo do mar de Timor. Mas, no mar, só vou até onde tenho pé... por isso, contento-me com a generosidade dos meus amigos Mário Ventim e Marta Chantal que me oferecem fotos tão bonitas como esta do fundo do mar de Ataúro.
Se calhar até dava jeito que pudéssemos viver no fundo das águas, desde que fossem tão transparentes como a que se vê na foto. Porque, para águas turvas, já bastam aquelas em que andamos, quando estamos no nosso habital natural, a terra. E no meu rincão natal, agora, anda tudo muito, demasiado turvo... Nem mesmo a chuva - mas até esta anda arredia! - consegue lavar o ar sujo! Imagina-se que a poluição dos espíritos passou para a natureza...

quinta-feira, janeiro 25, 2007



Do lado de cá, o mar é calmo, tranquilo. Tem mais leveza e transmite a serenidade da mulher timor e por isso lhe chamam Taci Feto, ou Mar Mulher.
Do lado de lá, as águas são mais batidas, as ondas mais alterosas, a assemelhar-se à Natureza do homem timorense, muitas vezes violento... E temos o Taci Mane, o Mar Homem...

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Pedaço de paraíso!

Na areia desta praia sentei-me muitas vezes olhando o infinito. Outras tantas, eu, a Tininha e o Hélder, às 6h30 (da manhã!), andávamos praia fora até à ribeira de Comoro, tomávamos um bom banho - a temperatura da água não podia ser melhor! -, víamos regressar os beiros de pesca, metíamos conversa com o pescador e voltávamos prontos para um dia de trabalho, não sem antes comentarmos uns com os outros, repetidamente: Ah, isto é que é qualidade de vida!
Desde Abril do ano passado que não ponho o pé nesta nesga de paraíso situada a cinco minutos da minha casa. E, só vos digo, tenho saudades...

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Há dias o Luís escrevia num tom céptico sobre a cor vermelha das lagoas de Taci Tolu de que lhe falou uma amiga a trabalhar em Timor.
Eu também estava tão céptica quanto o Luís até que apanhei o avião há uns dois meses e reparei lá de cima que as lagoas tinham mesmo o tom avermelhado cor de sangue que os timorenses - sempre a pender para o lado misterioso das coisas – interpretam como sendo sinal de mau agoiro...
Naturalmente tem de haver uma qualquer explicação lógica. Mas, o mais comum dos mortais sabe lá de química ou física que esteja por detrás da mudança de cor das lagoas!
Não sabendo e havendo que arranjar uma explicação para o fenómeno, nada melhor que adaptar a natureza à vontade dos homens... E a vontade dos homens – já que está tão difícil saber-se quem engendra a violência em Timor – é descartar a responsabilidade humana da violência e dos problemas que vivemos e atribuí-los a seres e coisas de outro Mundo...
Vá lá, Luís, deixe o pessoal pensar que é tudo culpa de outrem...
Não tendo foto das lagoas de cor alterada, junto outra da Areia Branca em dia de calmaria...


quinta-feira, janeiro 18, 2007


Em tempos que já lá vão, as árvores dentro do mar - os mangais - eram mais frondosas e serviam de morada a macacos e a morcegos. No tempo dos indonésios, quase desapareceram os mangais e, quanto aos macacos e aos morcegos nunca mais ninguém os viu por aquelas paragens.
Dizem que os macacos desapareceram na barriga de muito apreciador. Dizem e eu não garanto.
Os morcegos faziam daquelas árvores lugar de descanso, deixavam-se ficar de cabeça para baixo, com os pés bem presos aos troncos. Quando havia alguém a importuná-los, via-se o céu pintar-se de um momento para o outro de uma mancha negra até que as coias sossegassem e eles pudessem voltar ao seu descanso.
Lembro-me bem de ver, de manhã cedo, os morcegos a atravessarem os céus de Malinamoc, em Comoro, e dirigirem-se para os mangais, para além de Tíbar. À tarde, faziam o trajecto inverso. Voltavam para casa. Ainda hoje não sei bem se os morcegos dormem de dia e comem de noite, se é ao contrário.
Em Tíbar e no resto do percurso até Liquiçá já não se vêem morcegos. Mas, no meu quintal, sou muitas vezes surpreendida com os seus guinchos e os seus voos rasantes junto das cerejeiras japonesas que se vêem numa das fotos anteriores, cujo fruto é muito doce e lhes serve de alimento.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Nunca fui ágil como o rapaz que vai apanhar cocos quase no cocoruto dos céus. E tenho inveja, está bom de ver, de nunca ter visto o resto do Mundo lá de cima. Contento-me, sim, em beber água de coco e comer o miolo do mesmo sempre que me apetece.
Agora, vendem-se cocos à beira mar, tipo refresco. Sabe bem, asseguro!
Como bebi muita água de coco durante toda a minha vida, e fazendo fé na crença popular que diz que, quem bebe água de coco fica apaixonado por Timor e daqui não sai ou aqui voltará muitas vezes, acho que estou “condenada” a ficar por aqui. Mas é uma condenação que cumpro sorridente!

terça-feira, janeiro 16, 2007

Mais um recanto da minha alegre casinha... Quando o calor aperta - e porque nós gostamos de almoçar olhando a paisagem - colocamos a mesa na esquina da varanda e não há calor que resista...
Do outro lado do muro está a casa da Natália e do Álvaro e, um bocado mais à frente, a casa da Gabriela. É bom estarmos todos ao pé uns dos outros porque dá sempre jeito ter alguém por perto para o vulgar "oh, vizinha, dá-me um raminho de salsa?". Para isso e para saltitarmos de uma casa para outra em constantes visitas de cortesia, dois dedos de conversa e, claro, tudo iniciado com o também vulgar "queres vir cá tomar um café?"
O Luís quer saber de onde vieram os queijos. Daí, de Portugal, trazidos por mão amiga.
Às vezes também se comem umas sardinhas bem boas que cá chegam congeladas via Austrália a fazer lembrar as de antigamente trazidas pelos navios India ou Timor.

domingo, janeiro 14, 2007

O pecado da gula!

Fim de tarde com queijo da serra, queijo de Azeitão e paio em casa da Natália e do Álvaro. Deu para matar saudades!Até bebi meia taça de vinho tinto. Ah, e também comemos tremoços que preparei pela primeira vez, deixados de herança pela minha sobrinha Tininha que regressou à Austrália.! Depois, ao jantar, comemos um pato de cabidela que estava uma delícia. E, como não tenho juízo nenhum, ainda comi uma excelente manga do quintal. Como não tenho vinte anos, sinto-me um bocadito enfartada… mas soube-me tão, tão, mas tão… bem que nem imaginam… Vindo ao blog, deparei com alguns comentários de novos bloguistas. Um, já visitei e gostei - que bela pintura a da minha irmã Gabriela! - e agora irei dar uma vista de olhos aos dreams da Leninha. Amanhã conto!
Um dia destes irei ver as plantas do Augusto Lança.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Ossoroa, em Ossú. Aldeia perdida entre caminhos, tranquila, de campos a perder de vista, com a meia dúzia de moradores a deitar-se com as galinhas, ainda mal o sol desapareceu por detrás de outras montanhas e a acordar com os galos, de madrugada, quando ainda não há sequer vislumbre do despontar do astro rei. Belíssimo Timor!

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Pedaço do meu jardim.
Quando me apetece descansar os olhos e a cabeça, inspirar ar puro ou , simplesmente, nada fazer, venho para uma das minhas varandas e deleito-me com o espaço à minha volta. As flores, os pássaros, os cães, a horta, as árvores, o cheiro do jasmim e da canela, a montanha ao fundo...
Nessas alturas penso que, apesar de tudo o que por aqui acontece de menos bom , é gratificante viver em Timor... Pelo espaço, pelo verde, pela esperança...

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Água de rosas da minha infância


De um grupo de doze irmãos (éramos 14, mas não conheci dois dos meus irmãos mais velhos que morreram pequeninos), sete raparigas e cinco rapazes, a Natália é a mais nova. Quando nasceu, já a minha mãe tinha 42 anos e o meu pai, 52, o que fazia dela mais filha-neta do que eu e a Gabriela.
A minha mãe enchia-a de mimo. Ela era uma menina, com muitas bonecas de porcelana, de cabelo loiro, enquanto eu e a Gabriela, mais arrapazadas, nos perdíamos com descobertas de ovos de cobras, duendes e almas do outro Mundo.
Um dia, era de manhã bem cedo, lá na Fazenda, na varanda, reparei que a Natalita chorava alto ao colo da minha mãe, com as pálpebras fechadas por força da ramela que não a deixava abrir os olhos.
Isto aconteceu há mais de 50 anos (caramba, estou mesmo feric!) mas nunca me esqueci do meu ataque de ciúmes. Quando percebi que a minha mãe lhe tentava abrir os olhos com um algodão embebido em água morna de uma tigela onde nadavam umas pétalas de rosa cor da dita cuja, eu, que estava um bocado afastada -e embora também fosse uma coisinha minúscula de três anos tinha os olhos bem abertos - pensei com os meus botões que não era justo que não tivesse acordado também com ramela!

domingo, janeiro 07, 2007

Quando eu era garota e vivia na Fazenda Algarve, eu, a Gabriela e a Leonor vimos muitos duendes que vinham brincar connosco surgindo de repente por detrás de árvores idênticas a estas. Na altura, o lugar era mais fechado, e a vegetação mais luxuriante. Era tudo muito mais selvagem, e muito, muito mais misterioso!
Passávamos o dia fora de casa para onde só regressávamos ao cair da noite. Então era tomar um banho, jantar e conversar sobre as nossas brincadeiras e os nossos encontros de terceiro grau.
E nem vale a pena alguém vir dizer-nos que eram coisas de miúdos porque nós, ainda hoje acreditamos que eles, os duendes, existiam. Pois se apareciam todos os dias por detrás destas madres-del-cacau!

sábado, janeiro 06, 2007

Cachorrinhos lindos!


Quando saíram da casota para apanhar fresco, deixaram-se ficar assim, muito agarradinhos. Nem admira, porque o ambiente lhes era estranho a eles que haviam saído da acolhedora barriguinha da mãe cadela uns dias antes! Mas o calor era demais e os dois cachorrinhos também se ressentiram dele. Foi cada um para seu lado.
São lindos, são os primeiros filhos da Dondoca
e têm como pai ou o Flecha, ou o Liurai ou o Pé-de-vento. Um deles é.
O João ajudou-os a sair do casulo, melhor, da placenta. Eu… bem, eu fugi!

quinta-feira, janeiro 04, 2007


Continua a haver búfalos banhando-se, deleitando-se, fugindo da calor. Nós, os seres humanos, é que deixámos de os poder ver quando nos apetece. A crise e a situação estão na base do tolhimento dos nossos movimentos! E por isso, em vez de passearmos por Timor, deixamo-nos ficar em casa, sossegadinhos e, se saímos, vamos rezando a Deus e a todos os santinhos que nos guarde de alguma pedra atirada com precisão!
Mas, quando se podia passear pelo país – e não estou a recuar vinte anos mas apenas a referir-me a tempos recentes da nossa independência, há pouco mais de um ano - deparávamo-nos bastas vezes com imagens como estas.
Os búfalos da ribeira, com bastante mais água, têm mais sorte que os outros dois cheios de lama do charco à sua disposição.
No entanto, uns e outros parecem bem satisfeitos! Nem sempre é assim na vida dos homens, mas, na dos animais, cada um se contenta com o que tem!

terça-feira, janeiro 02, 2007

Pedradas


Ontem, depois das pedradas a fazer um estrondo enorme no telhado da casa, aparece o G. em correria desenfreada avisando-me de que haviam partido os vidros da casa dos empregados.
A conversa desenrola-se de dentro do muro para a rua. Não lhe via a cara e apenas ouvia a voz de um jovem irado contra os três jovens que, do alto do muro, lhe vão explicando que apenas querem trabalhar e não fizeram mal a ninguém.
Subo a um escadote e utilizo a mesma linguagem em resposta aos argumentos do jovem irado de um grupo de cinco mais calmos que nem intervêm na conversa. O jovem, bem constituído, braços tatuados, tronco nu, estava visivelmente alterado e transmitia raiva. Pareceria daquelas pessoas que querem vingar-se do Mundo inteiro!
- O meu pai fundou esta cidade. Já cá estou há muito tempo. Sou timorense. Sou desta terra.
- Olha, amigo, antes de nasceres já eu cá estava. E antes do teu pai, já os meus pais cá viviam. E também sou timorense.
- Pois, mas eu sou daqui e vocês não dão trabalho aos jovens do bairro. Só empregam pessoal da Fazenda.
- Sabes, amigo, eu também sou daqui. Mas, se queres emprego, fica a saber que não posso substituir-me ao Estado. Para além de que dou emprego a quem eu quiser.
Atiro-lhe ainda a vergonha que é criar tantos problemas quando ainda agora ascendemos à independência e aviso-o de que vou chamar a polícia.
- Chama a polícia, chama... Olha, eu chamo-me Manecas.
O grupo pede-me que não lhe ligue e arrasta-o para o bairro junto das bananeiras colado ao sopé da montanha.
Antes, porém, o dito Manecas ainda tem tempo para elucidar que é Colimau de Laga… Não é difícil perceber que está a tentar criar confusão: é que não rima a bota com a perdigota porque os Colimau são de Loromonu e Laga fica a Lorosae…
Antes de iniciar a conversa, ligo para a GNR que não tem a responsabilidade da segurança deste bairro, que me manda ligar para o 112 que não atende. Um helicóptero sobrevoa a nossa casa. Longos minutos depois, nova chamada para o 112 que continua a não atender. Ligo para o comando da polícia, para o 7230365, e surge outro interlocutor que fala tétum a quem explico o que aconteceu.
Entretanto, já o jovem e o seu grupo se haviam esfumado debaixo das bananeiras…
Agora que já passaram umas quantas horas sobre o sucedido, reflicto sobre a insegurança, o desemprego, o ódio, a violência e a falta de objectivos na vida que estão na base de tudo isto. Só isso justifica a intervenção intempestiva do jovem Manecas Colimau-Laga.
Vou tentar manter a serenidade. Até porque ainda me sinto animada do espírito do dia de Ano Bom e quero manter a esperança de que 2007 vai ser diferente…

PS: A Polícia já cá esteve a inteirar-se do que aconteceu e o pessoal do bairro diz que o jovem conflituoso deu às de vila diogo...

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Ano Novo!!!

Hoje é dia de Ano Bom!
Hoje, tudo nos surge pintado de esperança. Tudo é belo, tudo é transparente, límpido, bonançoso…
Acredito que o espírito do dia de hoje, se pudesse ser visualizado, só poderia ter o ar do menino da fotografia. Fresco, feliz, olhar inocente…
O menino é o meu sobrinho-neto e meu afilhado, filho da Ana Gabriela, que dividia o quarto com a Sandra quando todos vivíamos juntos, que é filha da minha irmã Gabriela…
Adoro o menino! Lindo, lindo, lindo!

domingo, dezembro 31, 2006

Bom Ano de 2007!


Fim de mais um ano. Triste, por sinal.
O meu país timorense está em crise. crise de valores, falta de segurança, loucura, desvairo colectivo. Assim vai Timor…
O meu país português, dizem-me os amigos de Portugal, também está em crise. Económica mas, da mesma forma, crise.
O Mundo em crise está.
Com esse triste cenário só nos resta fazer de conta que a vida é uma mar de rosas! Pelo menos de vez em quando… Ainda no ano passado, por estas horas, já eu me preparava para o fim do ano no Sporting onde havia festa animada com conjunto do Chico Mau Loi, o cantor, e do Armando, violinista e também cantor. Juntávamos um bom grupo de amigos e divertíamo-nos até às tantas.
Embora as festas de agora não tenham o mesmo brilho das de antigamente sempre me transportam às minhas memórias de outrora, quando as festas eram autênticas festas daquelas em que toda a gente se vestia a rigor, com fatiota nova feita na modista mais “in” cá do burgo… Havia uma competitividade saudável entre o grupo do Benfica e o do Sporting, com cada um deles, homens e mulheres, dando o seu melhor para que a festa do seu clube levasse o outro de vencida.
Eu ia sempre às festas do Benfica e só assim poderia ser, uma vez que na minha família somos todos benfiquistas. Todos, não, a minha irmã Maria é sportinguista! E os meus sobrinhos, filhos das minhas irmãs, cujos pais são de outros clubes, também são dos clubes dos paizinhos.
Dançávamos até às tantas da madrugada e, de cada vez que víamos o nosso pai olhar para o relógio, sofríamos a sério porque já sabíamos que chegada a hora limite por ele estipulada, não havia apelo nem agravo e tínhamos mesmo de voltar para casa! E procurávamos que a nossa distinta mãe estivesse bem distraída porque também já sabíamos que se lhe apetecesse voltar para casa, nem que a festa estivesse muito animada, era só ela, a mamã, manifestar a sua vontade e lá íamos nós, que o papá nem pensava duas vezes…
Este ano, o de 2006, nada de festas. Eu e o João vamos ficar sossegadinhos, no remanso do nosso lar da aldeia 30 de Agosto. Acho que vou pôr a girar um CD com música própria para dançar, bailaremos os dois ao ritmo do tango, rumba ou slow e à meia-noite comeremos as passas. Não, não vai haver champanhe que o tempo não está para essas modas…
E lembrar-me-ei então de todos quantos fazem parte da minha Vida. Dos que partiram deste Mundo e dos que ficaram. Da minha filha, sempre!
Da família toda ela espalhada por esse Mundo de Deus por onde também andam os meus amigos! E para todos aqui vai o meu desejo de que o ano de 2007 seja portador de tudo o que de bom cada um entenda ser o melhor para a sua Vida!
E, claro, que Deus guarde Timor e a paz e a concórdia voltem depressa!
Bom Ano de 2007!

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Calor!


Estamos na época das chuvas mas praticamente não tem chovido e o calor aperta a qualquer hora do dia. Aliada ao calor, a humidade traz-nos sempre encharcados em suor. Uns minutos depois do banho e o corpo volta a estar ensopado do malfadado, ainda que saudável, suor! Eu bem sei que é saudável suar, que a humidade faz bem à pele, mas isso não chega para me pôr de cara alegre.
Quando, em 2002 voltei para Timor, divertia-me quando via
alguém munido de toalhinha pequenina retirada do bolso ou da mala para secar a cara alagada em suor. Achava piroso. Mas, na vida é assim, não convém gozar! Hoje, também eu ando de toalhinha perfumada às costas, sempre pronta a entrar em acção. Por exemplo, sempre que vou cumprimentar alguém e tenho de receber o beijinho na face, nem quero imaginar que alguém se sinta desagradado ou enojado quando me cumprimenta e tem de sentir a pela encharcada. É desagradável, convenhamos… As pessoas não são obrigadas a gostar do sabor salgado do suor, não é?
Ao
calor e da humidade, junta-se-lhes amiúde a falta de energia eléctrica. Como anteontem, aí pelas 7 horas da noite. Duas horas sem energia! Nem pude ver a telenovela!
Com o gerador avariado, não tivemos outro remédio senão ir para a varanda, munidos de “arma” contra mosquitos. A “arma” de que falo é uma raquete que liberta electricidade e desferida contra os insectos os faz ir desta para melhor instantaneamente!
De alguns, safo-me! Do que não me safei foi de uma neura tremenda, tão grande que me deu uma terrível enxaqueca.
Depois de escrever este pedaço, senti-me bem! De repente percebi que, para escrever sobre o calor, a humidade e os mosquitos, só mesmo porque sinto alguma tranquilidade… É bom que ainda haja dias assim em Timor-Leste!


terça-feira, dezembro 26, 2006

Alô, Alô, Alentejo!

Ainda há dias aqui referi que este tempo de Natal me deixa sempre angustiada e com saudades. De tudo e de todos.
Fui ver as minhas mensagens e dei com a mensagem da Mila, uma das minhas amigas do Alentejo. De imediato me vieram à memória recordações de muitas conversas tidas em casa da Matilde – outra amiga de sempre do Alentejo, de Amoreiras-Gare – à lareira ou à mesa, sempre farta de iguarias várias, qual delas a melhor e a contribuir para o aumento imediato de peso …
A Matilde é a mãe do Ricardo que é casado com a Christiane de quem tem duas filhotas lindas. Conheci a Matilde há bem mais de 30 anos, quando o marido, o Humberto, nosso “compadre alentejano” (que prestou serviço militar nos anos 60 em Timor) ainda era vivo.
E através do Humberto e da Matilde, ficámos a conhecer os irmãos da Matilde. De entre estes, o Luís, marido da Mila e amigo de patuscadas com quem eu e o João aprendemos a apanhar mexilhões numa praia próximo da Zambujeira. Ah, claro, estava a esquecer-me da tia Silvina que era ainda mais gulosa que eu!
Passados anos e porque Portugal é mesmo um país pequeno, quis o destino que o Miguel, filho da Mila e do Luís, fosse trabalhar no Público, tendo sido meu colega…
Quando vivíamos em Lisboa, todos os anos íamos às Amoreiras e à Zambujeira do Mar. Muitos quilos engordei à conta dos doces da Matilde (ai que saudades do pão de rala!), do presunto, das linguiças, do paio, do queijo do pão alentejano, tudo caseiro como convém! E do óptimo ensopado de borrego da Mila! Enfim coisas de comer e chorar por mais! Costumo dizer que engordava um quilo por dia! Direi mesmo que, com a lembrança, até já me sinto a inchar!
Em dias como estes, recorda-se sempre com mais saudade o que de bom há nas nossas vidas. Os dias que, durante anos, passei nas Amoreiras e na Zambujeira do Mar fazem parte desses pedaços bons da minha vida.
Sinto-me bafejada pela sorte, por ter conseguido reunir - do lado de lá do Mundo e ao longo dos 32 anos que vivi em Portugal - um bom grupo de amigos de entre os quais se contam a Matilde e a sua família do Alentejo, para quem vai um abraço do tamanho do Mundo!
Alô, Alô, Alentejo! Timor chamando! Timor abraçando…

sábado, dezembro 23, 2006

Feliz Natal!




"Quero o Natal no coração,
multiplicando amor,
presente maior que posso ter... "

De; L. Amorim


sexta-feira, dezembro 22, 2006

Tempo de Natal!


Não se nota muito nas ruas, é verdade, mas paira no ar um certo clima.
É o Natal a chegar!
Nestes dias, deixo-me sempre vencer por uma certa angústia. É a lembrança da minha filha, são as recordações de outros natais felizes com a presença dos meus pais, de todos os irmãos, são saudades dos amigos, nostalgia, enfim!
Tempo de Natal é, tem de ser, deve ser tempo de paz! Vou, pois fazer figas para que a paz que o Natal nos possa trazer perdure em Timor-Leste, para que os homens interiorizem o valor da Paz e se deixem de violência!