domingo, julho 09, 2006

Receios e distracção

Este é mais um fim-de-semana sem praia nem montanha.
Os tempos estão difíceis e, embora a informação oficial seja a de que tudo voltou ao normal, as pessoas ainda têm algum prurido em retornar à normalidade, passear para longe de casa.
Eu faço parte do grupo de medrosos. Bem, acho que não devia ter utilizado essa palavra. É um bocado forte e não é politicamente correcta! Vou substituí-la por receosos. Medo ou receio, estou atacada. Estou medrosa, receosa. Não vale a pena disfarçar! Mas, está bem: Faço parte do grupo dos receosos. Assim está mais leve. Não tão leve que me leve a dizer que estou na maior! Isso seria ainda menos politicamente correcto por ser uma boa treta!
Ainda por cima uma enxaqueca das antigas estragou-me o fim de tarde. Eu bem queria fazer como na semana passada. Ir com o João olhar o mar da Areia Branca, ver Díli do outro lado da cidade. E depois rumar a Taci Tolu. Ver o sol a pôr-se por detrás da ilha de Alor e olhar a cidade deste lado. Amanhã, se tudo correr bem, lá iremos. A Areia Branca e Taci Tolu estão dentro dos limites possíveis. Persistem porém, algum, pouco medo, algum, pouco receio… mas sempre dá para desanuviar. Talvez contribua para que eu não me distraia e coloque duas vezes a mesma foto no blog. Vou substituir a de antes de ontem.

sexta-feira, julho 07, 2006

Pronto! Perdemos! Eu sei.



Pronto! Perdemos! Eu sei. Mas perdemos injustamente. O árbitro roubou-nos de forma indecente!
Eu vi!
Nós jogámos melhor!!!
O golo deles nem sequer foi muito festejado. O Zidane nem saltou, nem correu desenfreado pelo campo… Falta de saltos, de gritos, sinal de que eles sabiam que não tinha havido penalty nenhum!
Eu vi!
Deu-me uma grande fúria, fui para a cozinha e desforrei-me com um papo-seco quentinho, acabadinho de cozer no forno. Com muita manteiga, porque o organismo estava a pedir. E quando o organismo pede…
Não se esqueceram que agora sou padeira amadora, pois não? Ainda não sou padeira de Aljubarrota… Mas ontem à noite, bem podia ter sido padeira-de-Aljubarrota-em-Munique. E vingar-me naquele árbitro suburbano e sem qualidade! E dar-lhe no coco! Bandido do árbitro!!!
Ao menos uma vez, tenho de escrever: Viva Portugal!
Daqui a quatro anos… esperem pela pancada!


quarta-feira, julho 05, 2006

Esquerda, Direita volver!


Casa típica do Suai, lá bem junto à fronteira com o Timor indonésio. Reparem no pormenor da decoração, com esteiras coloridas a enfeitar a casa e a dar também alguma privacidade aos seus moradores.
Hoje estava na disposição de contar uma grande história, mas o tempo urge. Vou ter de ajudar uma amiga, simpatizante da FRETILIN num trabalho urgente de escrita.
E isto dá-me de repente uma grande vontade de me rir, porque há quem pense que aqui, deste lado do Mundo - que é o vosso outro lado - os da oposição e os da FRETILIN nao se podem nem ver.
Para além de que pensam que andamos todos à estalada!
Porque, se não andamos à pancada e aos insultos, se não viramos a cara ao do outro partido, estamos feitos uns com os outros, pela certa!
Fez-se luz! Então, eu estou feita convosco! Será???!!! Mas isso não é politicamnte correcto, pois não?
Ivonita, Leonor e Ana Cardoso Pires, está-me cá a parecer que um dia temos nós de andar à pancada! É que, não é por nada, mas vocês são muito de esquerda!
Bem, de vocês as três, tenho mais medo - confesso - da ginasticada Leonor...
Mas, então não é que reparei de repente que a maioria dos meus amigos é toda de esquerda!!! Pode lá ser!!!
Mas é verdade! Ele é o Paulo M., o Carlos P. o João R.A, mais duas outras Anas, o Agualusa, o Torcato S., o Jorge W., o Adelino, o António M. o Pedro C.R. entre tantos outros!...
Salvam-se a Anabela, que não é tão de esquerda e o João C. que não é nada de esquerda!!
Meu Deus! Estou perdida!

terça-feira, julho 04, 2006

Praia de Comoro

Bonito, não é?
Em tempo de calmaria política, sem desordeiros e incendiários à solta, este era o meu destino, manhã cedo, pelas 6H30...
Como hoje foi um dia calmo, pode ser que seja um bom prenúncio para a tranquilidade que se deseja para Timor. Quero acreditar que os dias de calma voltarão em breve! Querem vir à praia?

domingo, julho 02, 2006

Futebol e flores

Não sou demasiado doente pelo futebol, mas não dispenso ver um bom jogo. Sei que o amor ao futebol levado ao extremo é doença grave! Bem, não sou delirante mas, se calhar, o melhor é assumir que sou um bocado doente… sofro naquela hora e meia que parece-durar-uma-eternidade, insulto o árbitro – acho sempre que ele está contra nós, aliás, acho que o Mundo está todo contra nós! – faço figas, levanto-me vezes sem conta, bebo água, enfim, essas milhentas coisas que os doentes do futebol fazem! Perde-se um bocado o tino, é verdade! Mas não me dá para bater em ninguém se perder o jogo! Eu sei ganhar e perder!
Estou de acordo que há coisas bem mais importantes que o futebol e que a vida continua independentemente do resultado de um jogo.
Quando era miúda, em casa dos meus pais, toda a família torcia pelo Benfica.
O meu pai, quando o Benfica perdia, era certo e sabido que dizia que o café estava mal feito! Essa doença ainda hoje nos ataca. Continuamos a discutir acaloradamente com os familiares que se nos juntaram pelo casamento e que são do Sporting, do Belenenses ou do Porto.
Se o futebol aliena, não é menos verdade que também distrai. Por exemplo, agora que a situação em Timor-Leste está da maneira que se sabe, com insegurança, saques, incêndios, tudo a acompanhar um longa crise político-militar que não aproveita nada nem ninguém, assistir a um jogo e torcer por uma equipa, ajuda-nos a esquecer - pelo menos durante o tempo que dura o jogo – a difícil situação que vivemos!
Mas se eu sou doente pela bola, também compreendo que haja quem não goste! E como ontem já tive uma prenda com os três penalties defendidos pelo Ricardo, hoje ofereço flores: envio estas flores aos meus amigos/amigas não-amantes do futebol, em especial para a minha querida e arredia amiga Ivone Ralha!

VIVA PORTUGAL!!!

Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!

sábado, julho 01, 2006

Saudades!

Quando eu era jovem, adorava ir à praia com as minhas irmãs e sobrinhos a que por vezes, também se juntavam algumas amigas escolhidas a dedo pelo crivo rigoroso dos nossos exigentes pais e irmãos mais velhos. Nas manhãs de domingo, aí pelas 8 horas, lá íamos nós, radiantes, gozar as delícias do mar azul, de águas quentes da praia de Lecidere.
Era só atravessar uma rua, mas a verdade é que não era muito do agrado do nosso pai a nossa ida à praia, pelo que nos habituámos a ser sempre acompanhadas por familiares ou amigas bem mais velhas.
Às vezes, como é natural em todos os jovens, a distracção tomava conta de nós, especialmente quando a conversa estava mais interessante. Bem, nós não usávamos relógio… O sol fazia as vezes desse incómodo objecto utilitário… Outras tantas vezes embora soubéssemos bem que eram horas de voltar, esticávamos o mais possível a permanência naquela praia e fazíamos ouvidos de mercador aos avisos dos mais velhos. Também não ignorávamos que havia castigo sempre que prevaricávamos…
Se havia coisa que os meus pais não perdoavam, era não estarmos todos sentados à mesa à hora da refeição.
Eu explico melhor. Penso que a nossa mãe é que não gostava nada das nossas ausências mas, porque era muito nervosa e viveu sempre cheia de mimo dado pelo nosso pai, entregava-lhe a dura tarefa de nos meter na ordem. E ele, que não permitia nenhuma falta de respeito à mamã, era sempre muito severo com as nossas alegadas faltas de educação à sua adoradíssima mulher e nossa santa mãe. Também acho que ele se fazia mais surdo para não ouvir as nossas asneiras e mais distraído para fingir não ver as nossas falhas… afinal, havia sempre alguém atento…
Bem, havia que preservar o espírito da coisa. A refeição era tempo de conversa, de alegria, de troca de impressões, de histórias, e eles não gostavam nada que uma qualquer alteração viesse pôr em causa a ordem determinada, com imposição de silêncio e de uma sensação de mal estar que durava , convém dizê-lo – uma horita ou duas, findo o que tudo voltava ao normal. Castigo, em primeiro lugar, gelado horas mais tarde para retornar à tranquilidade.
O almoço reunia a família toda em duas grandes mesas. Éramos muitos e por isso havia uma para os adultos, outra para as crianças. Feijoada era o prato de domingo. Muito arroz branco, muito modo fila. E muita algazarra como ruído de fundo. E, depois, de acordo com a época do ano, ananás, mangas, tomates arbóreos. E sempre, bananas e papaias. De seguida, uma chávena de café fechava com chave de ouro os almoços e os jantares na nossa casa.
Éramos uma família feliz. Apreciávamos a vida em comunidade. Adorávamos conversar, conviver.
Hoje, estamos espalhados pelos quatro quantos do Mundo. Cada um constituiu a sua família.
Aqui em Timor, em tempo de paz, ainda nos juntamos todos. E como continuamos a ser muitos, qualquer reunião familiar até tem o ar de festa.
Agora, com a crise, não há ambiente para grandes ajuntamentos. Mas mantemos o contacto através do telefone. Com os familiares que estão longe, em Portugal, Austrália, Estados Unidos da América ou Cabo Verde, usamos a Internet. Criámos uma linha especial para asseguramos o contacto essencial para não deixarmos esmorecer os nossos laços afectivos.
Tenho a certeza de que a seguinte expressão é comum a todos nós, irmãos e sobrinhos: Ai que saudades tenho da minha meninice e adolescência…

sexta-feira, junho 30, 2006

Prisão de Aipelo


Ninguém fala da antiga prisão de Aipelo. Mas eu vou fazê-lo hoje.
A caminho de Liquiçá, ainda se vêem as ruínas da prisão. Situam-se pertinho do mar.
Para ali foram atirados os deportados políticos de quem Salazar queria livrar-se a todo o custo. Timor era então o pior destino, o mais longínquo, o sítio que, de tão longe, servia às mil maravilhas para manter bem distante da vista e da política do Estado Novo os perigosos anarco-sindicalistas e comunistas que fizeram frente ao velho ditador.
Ali esteve preso durante vários meses, no subterrâneo quente e húmido, com água até aos joelhos, o meu pai, tipógrafo, secretário-geral das juventudes sindicalistas, anarco-sindicalista. E com ele, entre muitos outros,
o senhor Abreu, um dos mais antigos militantes do Partido Comunista Português, o senhor Serafim Martins, pai do Eng.º Rogério Martins, o Senhor Fernando Martins, o senhor Pereirita, padeiro de renome e militante comunista, o senhor José Filipe e o seu irmão, avô de Ramos Horta.
Excepto Fernando Martins – pai da minha irmã de criação, Aurete, que teve uma morte violenta às mãos dos japoneses no último dia da Segunda Grande Guerra -, todos esses deportados fizeram parte da minha meninice. Simpáticos, bem dispostos, cultos e bem informados, estes homens impressionavam pela lucidez das suas ideias políticas, pela coerência do seu discurso.
Recordo bem que, apesar de Timor ser tão pequenino e bem controlado, os deportados nunca se vergaram nem nunca se silenciaram.
O meu pai falava alto, olhava a direito, enfrentava o perigo e conseguiu incutir-nos isso. Para além de que nos educou a defendermos com convicção e sem medos as nossas opiniões.
Quando era garota não conseguia perceber por que motivo Salazar os achava perigosos. E, na minha ingenuidade infantil, nem percebia porque
se achavam portugueses preteridos, eles os deportados, que eu – santa ignorância! – confundia com deputados! E estes, eu sabia que eram pessoas importantes do regime!
Como nos faz
falta, à minha família, a opinião lúcida do meu velho e sábio pai!
Hoje, recordo-os com saudade.
Está ainda por fazer a devida homenagem aos deportados políticos que Salazar desterrrou para Timor. Merecem-no e é nossa obrigação, familiares directos desses homens que moldaram o nosso carácter, fazê-lo. Com alguma urgência. Quando a situação em Timor o permitir.

quinta-feira, junho 29, 2006

Pausa


O desnorte tomou conta da cidade.
Estamos cansados. à espera.
Estamos em total desordem.
Nem consigo anexar uma foto. O blogue também deve andar desnorteado!
Deve ser tempo de fazer uma pausa.
Eu vou fazê-la. Até amanhã!

segunda-feira, junho 26, 2006


A caminho de Fuiloro, na Ponta Leste, há muitas destas aldeias perdidas, esquecidas. Nessas aldeias falta quase tudo.Não têm luz nem água canalizada, a escola fica longe, rareiam os transportes, as estradas estão esburacadas. Cada casa está impecavelmente arranjada e limpa. Pobre, muito pobre, sim, mas digna.
Uma galinhita aqui, um cabrito mais além, um porco... tudo à solta!
Por detrás da quase inexistente porta, surge de quando em vez uma cabeça espreitando curiosa quem passa de carro. E um dia segue-se a outro, sempre igual, sempre perdida, sempre esquecida, a aldeia...
Também ali, não há luta pelo poder, pela "cadeira" como aqui se diz.
Ali respira-se paz!

domingo, junho 25, 2006

Ataúro

Nunca fui ao Ataúro. Quem mergulha, afirma que o mar é um espectáculo. Eu mal sei nadar e já me contentava em dar umas pequenas braçadas naquelas águas transparentes!
Agora nem vale a pena pensar nisso. Os tempos continuam difíceis e mais vale ficar sossegadamente no remanso do lar!
O Ataúro tem uma história curisosa que contarei um destes dias quando estiver com melhor disposição. Hoje, apenas vos digo que no Ataúro nasceu o meu irmão Manuel. Lembro-me que o meu pai contava que tinha sido deportado para a ilha de Ataúro porque, em vez de ensinar a ler e a escrever aos seus alunos, distraía-se e começava a falar de política...
Salazar não gostou. Ele que julgava ter-se livrado do anarco-sindicalista quando o mandou para Timor, bem teve de o meter numa corcora (barco pequeno) e deportá-lo para o Ataúro....
Hoje, a ilha constitui um refúgio seguro para os deslocados de Díli que para lá se dirigiram mal rebentou este conflito.
Amanhã há mais. A noite já vai tardia e eu começo a ficar mais para lá do que para cá...

sábado, junho 24, 2006

A hora é de reflexão

O povo está apreensivo. Inquieto.
Sou parte deste povo. Tudo me inquieta e também estou apreensiva.
Quero acreditar. Mas já não sei em que hei-de acreditar!
Apetece-me gritar. Mas impõe-se que se faça silêncio.
A hora é de reflexão.

sexta-feira, junho 23, 2006

Sombras


Para além das sombras há luz, há cor.
Transparência.
Só que ninguém sabe quando se dissiparão as sombras no meu país.
..

quinta-feira, junho 22, 2006

Flores e plantas do meu canto



Diz-se que Natal é sempre que o homem quiser. Em Timor, o Natal até podia ser todos os dias dos 365 dias que tem um ano, porque durante todo esse tempo, esta planta - que na Europa apenas se encontra em Dezembro - existe o ano inteiro!
Já soube o nome dela, mas já me esqueci. Tenho duas plantas iguais, enormes, no jardim da minha casa.
Gosto de olhar para as minhas flores e para as árvores do meu quintal onde tenho buganvílias, canas da índia, orquídeas, fetos, avencas, uma madre-del-cacau, abacateiro, toranjeira, árvore da canela, goiabeira, bambus, gondoeiro, acácias, etc, etc... tudo isso porque gosto de ver muito verde, para me sentir "enflorestada" e para não me faltar o ar!
Quase sempre fico a pensar que é uma pena que Deus não tenha feito o ser humano tão perfeito como a natureza... Se calhar, pensar isto hoje é sinal de alguma decepção porque o bicho homem do meu país dá pouca atenção às flores... Eu é que sou uma sonhadora!

terça-feira, junho 20, 2006

Curva de Estrada



Quando se viaja para a zona montanhosa, a vegetação adquire este aspecto, luxuriante, rico de vários tons de verde.
Não, amiga Ana Cardoso Pires, aqui na curva desta estrada, o verde não é muito verde-água, não...
Gosto de viajar. É verdade que fico cheia de dores nas costas e no pescoço com os solavancos do jeep devido aos buracos em que se transformou a via.
Mas, no fim da viagem, o cansaço ficou completamente esquecido!
Estou a precisar de ir à montanha. É aí que recarrego as baterias. Que renovo a minha alma.
É nestes momentos que sinto falta de voar! Gostava de ter asas. É impossível, eu sei. Seria mais fácil um helicóptero... Pois, se fosse rica...
Assim vou-me deixando ficar por Díli e olhar o mar da marginal da cidade. Aí, sim, o mar alterna entre o azul escuro e o verde-mar, verde-água...
Também me faz bem à alma!



Cabrito em contemplação


Aqui, os cabritos, as cabrinhas, os cabritinhos – aliás como quase todos os animais – andam à solta, gozam bem a liberdade que lhe é dada pelo homem-dono.
E, em vez de dois dedos de testa têm dois cornichos, o que parece até que lhes dá algum discernimento. Se não, como se explica que este cabrito esteja à sombra, à beira mar, olhando - adivinha-se o deleite! -o mar azul?

Não queria, mas, com tão bom gosto,
não tarda estou cair na tentação de reconhecer ao aninal irracional mais inteligência que aos outros habitantes …
Pelo menos, sabe tirar partido do que a Mãe Natureza lhe oferece.
Enquanto que nós…
Pois!

domingo, junho 18, 2006

Estados de alma

Se não arrepiamos caminho – melhor dizendo, se não nos pomos a pau – qualquer dia, sem nos darmos conta, de tanto desbaratar, maltratar, queimar, intrigar, atropelar, transformamos tudo num deserto e acabámos como este cavalo a querer matar a sede no mar salgado…

Mas estava tão cansado, tão esquelético, tão maltratado... Não sei se conseguiu chegar ou se chegou a experimentar a água... salgada!


sábado, junho 17, 2006

A necessidade aguça o engenho


Esta é a minha primeira experiência do que é viver num ambiente de insegurança, de medo. Eu queria ser capaz de dizer que me parece que é a última crise, mas devo estar tão tomada pelo desencanto colectivo como todos os timorenses que apenas posso afirmar que espero que tudo se resolva muito rapidamente.
Apesar de tudo, tenho de ver o lado menos mau das coisas. Há quase dois meses que o quiosque da esquina deixou de vender pão. Fechou porque a dona se refugiou no D. Bosco.
Díli fica a sete quilómetros e o supermercado mais próximo fechou as portas.
Pois
tive de inventar qualquer coisa para suprir a falta de mandioca que ainda fez parte de muitos pequenos-almoços. É que o meu quintal não é pequeno mas tem limites e eu não estava a imaginar que sobreviesse uma situação destas!
E como a necessidade aguça o engenho, havia farinha, fermento, água… deitei mãos à obra e tornei-me numa padeira de renome… na minha família. Pão com sabor a queijo, a chouriço, com passas, simples, faço tudo!
O João adora, os meus irmãos gostam e as minhas duas cunhadas até já me pediram a receita!
Não tenho nenhuma foto da minha obra panificadora, mas tudo se passou no país mais belo do Mundo de que junto a respectiva prova. Só é pena nós sermos parvos por não sabermos tirar partido da sua beleza!

quinta-feira, junho 15, 2006

Canta o galo!



Nos dias de paz, os galos cantavam a desoras porque não tinham de prestar contas a ninguém da sua cantoria. Tanto se lhes dava que acordassem o mais comum ou incomum dos mortais com o seu cocorococó! Ele era cocorococó às 2 horas da madrugada, às 3, às 4, conforme lhe apetecia e conforme havia ou não repetição da sua cantoria pelos galos da vizinhança. Agora, que voltamos a estar nas bocas do Mundo e até temos todo um aparato miltar que vestiu Díli com roupas novas de outras cores bem menos alegres, com o barulho de helicópteros e de aviões sempre a desoras, como podem os pobres dos galarotes sintonizar as suas desoras com as dos homens? Não o fazem, claro! Nem falamos a mesma linguagem... Vai daí, cantam muitas vezes de manhã, à tarde, à noite, numas desoras muito mais desordenadas, isso sim, em perfeita sintonia com a desordem dos homens!

segunda-feira, junho 12, 2006

Penas!


Estou cansada.
E como me é difícil acreditar que amanhã tudo vai estar bem, estou a precisar de olhar para ontem, quando não tinha de espreitar para todos os cantos, desconfiada, assustada, com medo do dia, da noite, de estar sozinha, das vozes da rua e, às vezes até, da própria sombra.
Um qualquer barulho e o coração dá-me um salto.
Apetece-me não pensar em coisa nenhuma. Nem sequer me apetece deixar voar o pensamento. Tudo me causa cansaço!
Estou a olhar para o meu umbigo, diz-me a voz da consciência!
Sim.
Eu sei que há muita gente em muito pior situação do que a minha. Eu sei que muita gente está a passar fome, muitos padecem de doenças originadas pelas más condições de vida. Não desconheço nada disso.
Mas, como diz a minha amiga Anabela, eu também sou filha de Deus.
E será que os filhos de Deus também têm direito a uma pontinha de egoísmo? Não sei. Tenho dúvidas. Hoje, só não duvido de que estou cansada.
E por isso - estou a olhar outra vez para o meu umbigo - hoje, como estou cansada, estou com muita pena de mim!
Vou dar-me dois dias de descanso. Vou espraiar a vista. Preciso de pensar, de acreditar que a vida está normal.
É mentira, claro, mas também não faz mal pregar uma pequena partida a mim própria!