quinta-feira, dezembro 21, 2006

Idade real


Sem complexos de idade, gosto de dizer que tenho o espírito jovem... mas esse só eu o sinto... Já não aguento estar muito sentada como a jovem da fotografia e isso é sintomático de que já não sou nenhuma jovem. A idade não perdoa, não é, Anabela?
Aprendi com os meus irmãos mais velhos a envelhecer naturalmente. Eles continuam bem dispostos, apesar das mazelas normais da idade.
Quando se tem vinte anos, perde-se a noite e continua-se fresca como uma alface - apetece-me perguntar à Leonor e à Ana Cardoso Pires se ainda dançam pela noite fora sempre mantendo a mesma frescura -, dorme-se o dia todo e o corpo não se ressente, come-se uma feijoada ao jantar sem pensar na digestão difícil, anda-se de salto alto de dez centrímetros e a coluna mantém-se direita, bebem-se dez ou mais cafés por dia sem pensar na tensão arterial, a carne de porco entremeada é óptima e não há colesterol a estragar-nos o apetite...
Há três anos quando parti o pé em virtude de o ter colocado mal (quero dizer, não vi o buraco na rua...), percebi que só tinha mesmo o espírito jovem.
O segurança levantou-me do chão onde me estatelara ao comprido e, em resposta a alguém que lhe perguntou o que tinha acontecido disse "ferik monu", ou seja, a velha caiu...A velha era eu!!!
Ontem, cumprimentei alguém na rua e eis que veio rápido o cumprimento " Boa tarde, mãe!" isto, já para não falar de como sou avó de gente cinco a dez anos mais nova que eu. Já vou com sorte quando se ficam pelo respeitoso tia ou mana... Então sinto-me quase uma rapariga!
Há dias o Carlos Pessoa enviou-me as boas festas chamando-me rapariga! Como me senti leve... de espírito, porque o físico continua pesado a acompanhar a idade real...
Um dia, dizia uma senhora com 90 anos: ainda hoje sinto o pé a puxar-me para a dança. O problema é que o corpo já não aguenta. Mas a cabeça, oh, aí eu ainda danço como quando tinha vinte anos!
Enquanto escrevo, as memórias surgem em catadupa e recordo que, uma vez, em conversa de café com as minhas amigas de Lisboa ,falávamos sobre a terceira idade, o respeito que nos merecem os idosos, os problemas e a falta de atenção de que bastas vezes são alvo.
Uma das coisas que comentei é que sabia que, se continuasse em Lisboa, um dia teria de ir para um lar da terceira idade; aceitava a ideia com naturalidade. Só me fazia alguma confusão o cheiro a urina que paira no ar em muitos lares de terceira idade, de acordo com o que se lia e se via nos noticiários. A Ivone deu uma gargalhada e atirou-me de chofre "Oh, nessa altura nem vais dar pelo cheiro!"
Ri-me, retorci-me na cadeira de nervoso, pois claro!, e ainda hoje me questiono se irá ser mesmo assim? E como a ideia ainda me incomoda, registo, com agrado, que ainda vem longe a decrepitude!
Por outro lado, agora que vivo em Timor, apraz-me registar o cuidado e o respeito com que se tratam os idosos da família. Aqui não há lares de teceira idade e os mais novos cuidam naturalmente dos mais velhos.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Timor


Vivo num país de sonho. Belo, exótico, diferente. Como se vê nesta foto do Hélder Encarnação, meu sobrinho por afinidade, casado com a minha sobrinha Tininha.
Às vezes tenho de “puxar” ao sentimento, lembrar-me de como Timor é bonito e de recorrer outras tantas vezes, às minhas memórias de infância feliz para me esquecer que os dias se desenrolam tristes, loucos, violentos
...

domingo, dezembro 17, 2006

Carinho


A minha irmã Maria foi operada ao coração pela terceira vez. Estávamos todos com o credo na boca, mas a minha irmã dá-nos sempre - a todos, irmãos, filhos e netos - uma lição com a forma tranquila com que reage a situações graves. Para ela, o inevitável deve ser encarado com naturalidade.
Ao pé da mana Maria, como nós, os mais novos a tratamos quando não recorremos a outro modo mais informal e igualmente carinhoso chamando-lhe velhota Mary, ninguém se sente à vontade para se queixar de uma dor de cabeça. Pois se ela, raramente se queixa das suas graves mazelas, nem mesmo quando tem mais do um ataque de angina de peito num dia!
Hoje de manhã enviei uma mensagem à minha irmã Alice que está a acompanhá-la no hospital em Adelaide e, depois de saber que lhe foi posta nova válvula – desta vez de boi em vez de porco - fui surpreendida por um telefonema. Fraquinha, muito fraquinha, a voz da minha irmã Maris encheu-me de alegria e de comoção! Nem se imagina quanta!
O meu irmão Manuel fez ontem anos! Não houve jantar de aniversário como nos anos anteriores - a crise, sempre a crise e o medo das consequências da crise… - mas houve lanche para festejar os 73 anos do velhote Manuel e, claro desejando todos que o dia 16 se repita por muitos mais anos!
A minha irmã Mary é a mais velha da família. Antes dela, tínhamos a mana Dora que faleceu em Lisboa, no vale do Jamor, era ainda muito nova, com 50 anos. Enfer
Os manos Mary e Manuel são os mais velhos e, por isso, os tratamos com tanto carinho a que não falta também imenso respeito, igual, aliás, ao que nutrimos pela mana Lila ou Ermy, ou Ermelinda – vários nomes para uma só pessoa! -, que também está bastante doente e festejou mais um aniversário - 71 anos! - no passado dia 13.
Os meus três irmãos mais velhos são um bocado como se fossem meus pais. Têm idade para isso…
Aos meus três irmãos mais velhos, um grande beijinho. Com todo o carinho do Mundo! E o símbolo de tanto carinho só pode mesmo ser uma foto da nossa casa da Fazenda Algarve. Ali, tods nós,
os doze irmãos, desde sempre soltámos a alma e ali respirámos ao ritmo da terra, porque dela fazemos parte… Ontem, como hoje. Como sempre!

quinta-feira, dezembro 14, 2006

O dia devia ter 48 horas...


Pois é, o dia devia ter 48 horas e eu devia ter 24 anos. Digo isto porque não tenho muito tempo livre, não consigo fazer tudo quanto quero e, por isso, tenho falhado os posts aqui no Outro lado do Mundo.
Depois de um tempo a trabalhar na TT de onde saí por razões tão tristes que, por enquanto, prefiro nem sequer recordar, fiquei uns tempos em casa.
Arranjei novo emprego e tenho de implementar um projecto de arquivo. Sou estudante do 1º ano de Direito e, logo, tenho de estudar muito, até porque, não tendo 24 anos, o tempo de interiorização das matérias é um bocado diferente... falta a frescura da juventude! Mas que me esforço muito e desse esforço tenho tido reconhecimento visivel nas notas, lá isso é verdade!
Com a minha irmã Natália e um amigo, abrimos um restaurante com comida portuguesa, quase toda ela.Dá-nos um trabalhão!
Gosto muito de trapos e resolvi, em conjunto com a minha irmã mais nova, ficar com uma loja que vamos baptizar de Maria´s, depois da Furak (fantástico/a), arte e decoração.
Para além disso, ainda escrevo para o blogue Timor 2006. E, todas as semanas tenho de debitar notícias para a SBS australiana, programa em língua portuguesa, porque sou a correspondente aqui em Timor. Ainda tenho de arranjar tempo para a minha actividade político/partidária, ao abrigo do artigo 46º da Constituição da RDTL, acumulando com o ser dona de casa, mulher do João, irmã, tia, prima e até avó emprestada!
Tinha já iniciado um livro mas esse ficou adormecido no computador até que eu o acorde numa bela e luminosa manhã em que me sinta não com 24 anos mas com 45... Já ficaria bem...
Então, não acham que tenho razão quando digo que o dia devia ter 48 horas e eu 24 anos?

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Esperança


Tenho escrito menos para não cair na tentação de relatar sempre a mesma coisa, dando conta das frustrações originadas pelos mesmos problemas… Eles existem, não sabemos quando tudo voltará ao normal e eu achei por bem explicar-me porque a minha irmã mais nova, a Natália, me perguntou o porquê da minha ausência.
Estando esta explicada, daqui vos envio esta foto. O verde significa esperança e essa deve ser a última a morrer. Eu continuo esperançada que melhores dias virão. Que há-de chegar o dia em que eu possa de novo desafiar os amigos a virem a Timor, um dos últimos paraísos da terra.
Espero!

sexta-feira, dezembro 01, 2006

No dia mundial da luta contra a sida, um beijo para a minha filha Sandra Sofia. E a minha imensa saudade!

segunda-feira, novembro 27, 2006

Máquinas

Tinha uma excelente máquina digital com a qual tirava fotografias como esta. Claro que o mérito não era meu, mas da paisagem – belíssima - e da máquina - óptima.
Tirei umas quantas fotos todas elas belíssimas até que um dia a máquina se finou… não, não morreu de morte natural. Morreu às mãos do Julito, um jovem montanhês curioso que resolveu manusear a máquina até que lhe provocou um ataque e a máquina se foi de morte súbita.
Substitui a máquina por outra mais simples. Mas ela, coitada, não morreu mas jaz adormecida na gaveta à espera de que haja calma suficiente para que eu possa experimentá-la convenientemente.
Agora, não me atrevo, não vá surgir um louco que a mate com uma pedrada. Bem, antes a máquina que eu, é verdade. Mas, máquina ou eu, o melhor mesmo é não provocar ninguém! É que aqui, em Timor, nos dias que correm, até tirar fotografias pode ser considerado uma provocação!

domingo, novembro 26, 2006

As minhas amigas são assim…



Ontem, depois de postar, pensei cá para os meus botões que haveria alguém que não iria perdoar-me o facto de não ter citado o nome dela… Aí, esquecendo o boi estúpido ( para mim, já que a Ivone o acha admirador de qualquer coisa…), dei comigo a pensar: macacos me mordam se…
Pois, olhem só a sorte! Ainda bem que não tenho macacos em casa! (Ora bolas, porque não hei-de eu ter esses poderes de adivinhação com o euromilhões?)
Então, não é que acertei em cheio? A minha queridíssima amiga Anabela ficou sentida, claro! Pois se foi ela que me sugeriu mostrar aqui um quadro (mesmo inacabado) da minha irmã pintora!
Não, Belita, não te esqueci; juro por “Deus, Terra, Cruz, Bandeira” (Maromak, Rai, Cruz, Bandeira), como se dizia quando eu era garota! Nããããão te esqueciiiiiii! Verdaaaaade!
Mas lá que a Ivone percebe mais de pintura do que nós as duas, lá isso…
Bom, mas tenho de me redimir que não quero ser a responsável de uma subida de tensão da minha amiga Anabela!
E por isso a foto de hoje com orquídeas do jardim da pintora é só para ela!
Ai, como isto me faz ter saudades das conversas olhos nos olhos, contando, ouvindo, rindo ou mesmo chorando, com as minhas amigas!
Beijinhos, amigas!

Um quadro da Gabriela

A minha irmã pintora-jornalista mandou-me uma foto de um quadro que a minha irmã Natália tem em sua casa. O quadro é lindo. Gosto do rosto das mulheres, das cores. A foto, disse-me a Gabriela, adulterou-lhe as cores. Pode até ser mas eu, que sou uma ignorante, embora defronte de uma pintura não fique tão estúpida como um boi a olhar para um palácio, só consigo achá-lo bonito e não vejo cor nenhuma adulterada!
É boa! Depois de ter escrito sobre o boi a olhar para o palácio, presumi de imediato – ah, o meu poder de adivinhação! - que a minha amiga Ivone Ralha está a rir-se do que eu disse.
Pois é, Ivonita querida, há uma diferençazita: é que eu tenho consciência da minha ignorância e sei que não percebo patavina de pintura. Ou gosto ou não gosto. Ou é bonito, ou é feio… Mas o boi, coitado, olha, apenas…
Concordas comigo?
Já estás na gargalhada! Que bom!

quarta-feira, novembro 22, 2006


Já la foi o tempo em que saíamos para passear e íamos até à fronteira com o Timor indonésio. Nessa altura, pensávamos que o perigo estava todo do outro lado da linha. Afinal... enganámo-nos redondamente. E, dói, como dói! Oh, se dói e como me envergonha tanta loucura!

segunda-feira, novembro 20, 2006

Mataram um timorense que queria a reconciliação. Mataram um brasileiro que trabalhava para difundir a sua fé. Morreram em nome de coisa nenhuma.
Não bastando isto, soube que, num acidente de viação, talvez devido ao mau estado das estradas, morreu o pai de menina ( cuja fotografia aparece nos primeiros posts) e de mais outros cinco meninos pequenos.
É muita tristeza para um dia só!

Até amanhã.

domingo, novembro 19, 2006

A minha irmã Gabriela

Podia responder em comentário ao Maracujá Maduro mas senti-me tão orgulhosa pela minha irmã Gabriela e ao mesmo tão sensibilizada por reconhecer o seu valor que não resisto a responder em post especial.
Porque não escreve mais vezes e conta as suas histórias de Timor? Só iria enriquecer o blogue.
Tal como eu e a minha irmã mais nova, a Natália, a Gabriela também não sabe nadar. É uma vergonha, mas é assim…
Mas a Gabriela é uma artista e, como todos os artistas, sensibilidade e imaginação não lhe faltam. Por isso, as obras dela são tão cheias de cor, de matizes e de muita, imensa imaginação. E, claro, de bastante trabalho.
Aquele belo quadro que está na recepção do hotel Timor e que versa sobre a criação de Timor, exige do observador muita atenção e um profundo conhecimento da alma timorense. Num labiríntica e emaranhada sucessão de cor e de figuras, vêem-se um crocodilo, disfarçado nele uma casa e nesta, uma mulher, uma criança, uma árvore… Tudo quanto se refira à criação e ao imaginário timorense está lá, desenrolando-se, ligando-se em perfeita sintonia, em cada pedaço de tela.
Aliás, o mesmo acontece nos quadros que estão na Fundação Oriente.
Os duendes da minha infância também são os da infância dela e, naquele quadro da sala de entrada da Fundação, nós somos as mulheres em convívio com o duende… E sobre duendes, muito escreveu a Gabriela num livro que há-de ser um dia publicado! Nessas histórias pode-se compreender melhor o que está por detrás da arte da minha irmã pintora.
Tenho pena que livro e pintura estejam um bocado postos de lado na gestão que ela faz da sua vida. É que como o Maracujá bem sabe, ela é também jornalista e tem um cargo directivo na SBS e isso ocupa-lhe demasiado tempo.
Reconhecendo nela uma excelente profissional de Rádio e Televisão e compreendendo embora as suas razões, tenho contudo pena que se esteja a perder uma artista de mão cheia!
Também tenho muita pena que Timor-Leste não a tenha querido aproveitar na Comunicação Social e que não dê importância ao seu valor. Mas isso, Maracujá, já tem outras implicações que nos escapam!

sábado, novembro 18, 2006

Mar azul


Esta curva de estrada à beira-mar leva-nos, entre outros destinos, a Liquiçá, Fazenda Algarve, Ermera, Bazar-Tete, Bobonaro, Suai e também ao Timor indonésio. O caminho é todo assim recortado, junto ao mar, passando por algumas salinas e muitos mangais. A paisagem é deslumbrante.
Hoje, apesar dos buracos, ainda se pode dizer que é uma estrada alcatroada. Mas, há quarenta anos, era de terra batida, poeirenta e a viagem para Liquiçá que hoje se faz em meia hora, fazia-se em mais de hora e meia.
Quando eu era miúda ia muitas vezes para a Fazenda Algarve com o meu pai. Numa dessas vezes, ia connosco um grande amigo, o senhor Mário Graça, que era escrivão, casado com a D. Alice e pai do Manano, Nené e Nelito e que hoje vivem em Moçambique.
O meu pai era muito prático, muito terra à terra. O senhor Mário Graça era mais sonhador, mais poeta. Prático e poeta, ambos casaram por amor com as suas respectivas mulheres tendo protagonizado cada um deles uma bela história de amor.
A propósito do tempo gasto na viagem, o meu pai, em conversa com o o amigo, disse-lhe que o Governo estava a pensar encurtar o trajecto, construindo uma nova estrada pela montanha. Ganhavam-se alguns quilómetros. O senhor Graça contrapôs logo que era uma pena, que se perdia a paisagem. Retorquiu-lhe o meu pai que a paisagem podia continuar a ser vista lá de cima.
Não liguei muito. E também não tem imporatância nenhuma porque não se construiru nenhuma estrada nova e tudo se manteve igual. Mas, lá de cima ou junto ao mar, o caminho continua a ser deslumbrante... Tinham os dois razão!


sexta-feira, novembro 17, 2006


Tenho pena de não saber nadar. Não que tivesse tido alguma vez a ambição de ser campeã de natação.. Mas gostava de poder ver o fundo do mar e, para isso, só mesmo sabendo nadar...
É de bom tom esclarecer a autoria da fotografia
do "nudibrânquio" - de acordo com a legenda - que tomei a liberdade de vos oferecer. . Foi-me enviada pelo Mário Ventim, um professor universitário que costuma vir a Timor dar aulas integrado no projecto da FUP, a Fundação das Universidades Portuguesas ( este ano ainda não veio...) e que, tal como a Marta Chantal, adora mergulhar. aqui vai um abraço para ambos.
Dizem eles que o mar de Timor é um espectáculo... Pela foto, quem pode pôr em dúvida?

quarta-feira, novembro 15, 2006

Recordações


A minha irmã Gabriela escreveu as suas memórias sobre a nossa infância e a nossa convivência com os duendes da montanha.
Foi há muito tempo, mas nós ainda hoje nos lembramos muito bem do seu aspecto físico e das suas brincadeiras. Tal como também nos lembramos que nesta curva de estrada costumávamos vê-los por detrás das árvores...
Ai, que saudades da minha infância!

sábado, novembro 11, 2006

Descansar o olhar


Vou a uma festa de casamento que a crise obriga seja durante o dia.
A crise, sempre ela, a senhora dona crise, é quem manda em todos nós. Somos os seus escravos. E nem sabemos quando vai teminar o seu reinado !
Por enquanto, vamos descansando o olhar neste pedaço de azul de céu e de mar... no ecrã do computador porque ir ao sítio... Sabe-se lá até quando o poderemos fazer!

quinta-feira, novembro 09, 2006


Crianças do Suai.
Como estarão elas?

Qual vai ser o seu futuro?
Ai, a loucura dos homens!

Deixem que solte um profundo suspiro!


Gosto muito do mar azul mas faz-me falta o verde destas montanhas!
Sem paisagem de montanha, sem ar puro, sem verdes, sem pássaros multicores cantando de forma diversa, sem madres-del-cacau, e, quase me apetece dizer, sem mim… sinto-me com um peixe fora de água! Deixei de ter qualidade de vida!
E ainda por cima nem sei quando poderei andar à vontade por esses caminhos de paisagem tão deslumbrante!
A vida é assim, uns fazem asneiras mas todos pagam por elas! Bem, nem vale a pena praguejar. Não resolvo nada com isso, sei. Mas, ao menos, deixem que solte um profundo suspiro. Ai!
Pronto, fiquei mais calma!

terça-feira, novembro 07, 2006

Sandra Sofia


Num ataque fortíssimo de saudade, no dia em que a Sandra Sofia faria 36 anos, quase morro dessa imensa saudade! Envio um beijo à minha filha que o receberá onde quer que esteja! E partilho um excerto de um escrito de outro momento de saudade atroz num igual dia 7 de Novembro..

O céu estava azul,

A pomba branca abandonou a sala escura. Bateu as asas um bocado assustada com a liberdade que lhe surgia assim, de repente, do nada…sem nada nem ninguém a persegui-la... e voou… voou rumo ao Infinito; afastou-se da pequenez da vida e do inferno em que se tornara a sua vida na terra.

Um último olhar para trás, transformou-se num pontinho minúsculo na imensidão daquele azul do céu; o ar límpido era apenas cortado por uma brisa suave e fria que soprava naquela manhã de Inverno. E ela partira para muito longe…

Até um dia, Sandra Sofia!

&&&

Morena, pele dourada, cabelos e olhos castanhos claros, boca carnuda e uma arte de sedução inigualável, assim era a Sandra Sofia. Era e ainda é; na minha memória, ela continua viva.

Partiu numa madrugada fria, de Fevereiro. Mal respirava quando, à noite, a deixei no hospital, mesmo depois de aumentada a potência do oxigénio. Não sei se fugi, porque não quis acreditar que o fim da minha filha se aproximava e cobardemente saí, não sei se não quis aceitar aquilo que deveria estar a entrar-me pelos olhos dentro que era o fim da sua vida a aproximar-se. Não sei se descria que, afinal, a morte também a podia atingir. Aliás, não me contara ela um dia que se sentia imortal?
… …. …

Tocou o telefone eram 7 horas da manhã. Adivinhei que ela tinha partido.
O Céu escureceu pela certa e o Mundo passou a ser outro. Estava vazio! A minha vida perdeu o sentido. Pensei que bem podia ter partido com ela! Afinal, que me restava depois de ter perdido a razão de ser da minha vida durante 24 anos, precisamente os que ela vivera?

Sonho com ela, vejo-a voando alto, segura e leve, adivinho-a a sorrir, serena, com os seus cabelos castanhos dourados ao vento e sei que um dia, não sei quando, mas um dia certamente tranquilo, direi adeus à saudade, direi adeus à dor porque vou voltar a vê-la, vou agarrar-lhe na mão, vou, vou...

Oh, Sandra Sofia, minha Filha!


quarta-feira, novembro 01, 2006

Olá, pessoal!


Voltei!

E trago-vos esta bela foto da Ponta Leste. De um lado está a ponta da ilha de Timor, a praia de Tutuala. Do outro lado do mar, vislumbra-se o ilhéu do Jaco, lindo, de morrer!

O clima por aqui continua quente. Não deixa tempo nem disposição para se escrever com tranquilidade. Aliás, tudo quanto se diga está relacionado com a crise… E isso não quero fazer aqui. Porque prefiro que este canto seja o sítio de um outro Timor que tem mais a ver comigo do que este, de 2006.

sábado, setembro 16, 2006

Pausa

Sem acesso ah Internet e num teclado sem acentos, ateh que tenha de novo internet, vou fazer uma pausa. ateh breve!

sábado, setembro 09, 2006

Retemperar forças é urgente!


Por causa da crise, da insegurança, das armas, do medo, há que tempos não saio de Díli com o fito único de retemperar as forças, em muda contemplação das paisagens belas que me rodeiam, agradecendo a Deus a dádiva da beleza da vida, lavar a alma e preparar-me depois para mais um período de medo, de insegurança, das armas, da crise...
Quando passará esta loucura?
Porque serão os homens tão loucos, tão levianos, tão ambiciosos?

sexta-feira, setembro 08, 2006


Uma sepultura gentia de um elemento muito importante da aldeia próxima, num cemitério a caminho de Fuiloro, na Ponta Leste de Timor.
Fuiloro é um dos locais onde a igreja católica está bem enraizada. Dá-me particular prazer referir o contacto perfeito entre as crenças animistas e as cristãs. Lado a lado, sem atropelos, respeitando-se, completando-se… É assim Timor...
Pena é que às vezes nos esqueçamos destas especificidades que fazem deste país um lugar especial!

quinta-feira, setembro 07, 2006

Momento de reflexão


Faz falta parar de vez em quando. Para pensar, para reflectir sobre o sentido da vida das coisas. Sobre o que fazemos, o que somos ou não somos capazes de fazer.
Esta foto remonta a 1999, Setembro, recorda o massacre na Igreja do Suai onde perderam a vida centenas de pessoas pela independência de Timor-Leste.
Um curto momento de reflexão é o suficiente para se concluir que nada fizemos desde então para merecer o sacríficio dos que morreram pela liberdade deste país. Pelo menos em sua memória, e pela nossa dignidade, impunha-se que fizéssemos alguma coisa. Já, sem adiamentos...

segunda-feira, setembro 04, 2006

Nascer do sol em Malinamoc


Timor é tão bonito e é uma pena não poder gozar as belezas que o país nos oferece! Mas, com a crise que não nos larga desde Abril, acabaram-se os passeios pelo interior, reduziram-se as idas à praia. Estamos sempre condicionados pelos incidentes que surgem em qualquer bairro, qualquer rua, sem hora marcada. Para além de uma voltinha até à Areia Branca ou a Liquiçá - no que se pode dizer que já vamos com sorte! - salvem-se ao menos o convívio familiar e com amigos! E mesmo esses acabam cedo, são discretos, por causa da crise e da segurança. Isto desgasta um bocado!

Assim, nem sequer nos sobra disposição para apreciar a paisagem de que é exemplo este belo nascer do sol aqui em Malinamoc, Comoro, onde vivo! Então não é uma pena desperdiçar tanta beleza?

quinta-feira, agosto 31, 2006

Timor do futuro



Recordando o dia do Referendo a 30 de Agosto de 1999 e olhando para esta fotografia das crianças da montanha, sempre se fica com a esperança de que elas vão fazer de Timor o país que todos desejamos: um país solidário, livre, democrático, desenvolvido, sem fome nem pobreza, com os direitos humanos todos bem defendidos e respeitados, em particular o das crianças...
Timor do futuro.Vale a pena acreditar!

sexta-feira, agosto 25, 2006

Ainda em Bali, continuamos eu e o meu marido, de papo para o ar, experimentando cozinha e massagem balinesa... Amanha vou passear a Ubud, nos arredores montanhosos de Denpasar. Bonito, mais verde, mais típico. Mas sem o encanto da meia ilha do crocodilo! Ai, Timor, como diz o Luis, tem mais encanto! So é pena que os timorenses andem de cabeca tao à roda!!!
Ate domingo, de Díli.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Ferias

Vim a Bali. Até domingo estarei por aqui. Não vou escrever muito porque nao sei onde páram os acentos neste teclado. E nem posso mandar fotos que as nao tenho a mão. Mesmo sem foto, posso dizer que Timor e de longe muito mais bonito que Bali. Só que eles tem juízo e nos andamos esquecidos do que isso é. Eles enriquecem a sua província e nos queimamos e destruimos o nosso pais. Fraca consolação, a nossa... Quase apetece dizer que dá Deus nozes a quem nao tem dentes! O que não consola nada, pelo contrário deprime e entristece.
Ai, Timor, ai nós, timorenses, onde temos a cabeça, Santo Deus!!!

terça-feira, agosto 22, 2006


















Há tamanha insatisfação, tanto medo, tanta desconfiança... os dias repetem-se de episódios violentos, de boatos, de meias-verdades... tudo numa mistura tal que, às tantas, já ninguém sabe onde começa uma coisa e acaba outra.
Espera-se, espera-se, espera-se por uma acalmia definitiva, que alguém tome medidas correctas e certeiras. E desespera-se.Porque tudo volta ao mesmo tão depressa como o vento de Agosto em Díli.
Se todos temos medo, todos desconfiamos, se todos queremos paz, então pergunto eu, quem andará a amedrontar-nos?

segunda-feira, agosto 21, 2006


Estou com um sorriso parvo. Mas sei, sinto-o, tenho-o estampado na cara. Parece daqueles sorrisos forçados para a fatografia, quando se diz, dentes meio ao léu, "banana" e, na foto, passa para o futuro uma imagem de falsa alegria construída à la minute... Porque sorrio tão parvamente? É bom de ver e de saber: Voltei a ter linha telefónica, logo, posso postar de novo! Finalmente! Os cabos foram colocados. Desta vez são cabos subterrâneos. Agora, é rezar a Deus e todos os santinhos que não haja nenhum espertinho que se lembre de fazer dinheiro com o que não é seu!
O clima na cidade continua quente. Voltaram os incêndios e ainda não terminaram os apedrejamentos. A loucura tomou conta das pessoas e parece ter vindo para ficar. Não gosto. Estou cansada e nisso devo estar acompanhada pela totalidade das pessoas de bom senso. Pena é que os loucos nos ultrapassem aos montes!!! Estamos em minoria, pois estamos! Assusta, não é?
A quem serve isto? Para onde vamos
e para onde nos querem levar?

sábado, agosto 05, 2006

Arco iris

Apesar de ja publicada, continua a ser um bela foto. ainda sem acentos nem cedilha, um bom fim-de-semana!

quinta-feira, agosto 03, 2006

Crise, sempre ela!





Eu bem quero ganhar serenidade mas, estou um bocado irritada com o corte dos cabos de aço. Complica-me a vida, a rotina que havia já estabelecido para os meus posts. Vou contar até 1000 , a ver se me acalmo um pedaço. Maldita crise! Bandidos sem vergonha! Os que roubaram os tais 450 metros de cabo. Só espero é que a TT não se atrase demais na reparação. É que não sou ministra, nem embaixadora, nem deputada da maioria, mas sou cliente da dita empresa e a INTERNET faz-me falta. Sem comunicação, sinto-me marginalizada, isolada. E eu detesto isolamento e solidão, a menos que sejam da minha escolha em momento que eu entenda ideal e necessário. Não é o caso.
Hoje, também nem vou escrever muito. Envio apenas fotos para descansarem os vossos olhos do betão da cidade. Um, é caminho que uso para a parte da frente da minha casa. Como me “canso” muito com o calor – tudo são desculpas de preguicite aguda, bem entendido! – deixo o carro mesmo à porta de casa. Dou pra´í uns dez passos e estou na varanda da minha casa de que também envio foto. A outra foto mostra a minha casa quando o jardim era ainda uma amostra do que é hoje.
Quando Timor estiver calmo – nem faço agora qualquer conjectura sobre tal! – venham até cá. Sirvo-vos um bolo de coco – uma das minhas especialidades – e um café de laco. A Anabela há tempos mandou-me um recorte de jornal precisamente sobre a qualidade e o preço do dito café. É uma especialidade, é raro, não se exporta. Guarda-se para consumo interno.
Fico à vossa espera. Agora, despeço-me. Até um dia destes.

terça-feira, agosto 01, 2006

E tudo resultado da crise. Da situacao

Estou numa maquina sem acento, num teclado a que sou estranha e por isso isto hoje vai sem acentos e com cedilhas e pontuacao deficientes.

Desde sabado que nao tenho acesso a internet. Alguem resolveu cortar dezenas de metros de cabo por malvadez e quase certamente em proveito proprio.

Bem, o melhor e respirar fundo, contar ate 120 e manter a calma. Estamos em crise. A situacao obriga a manter a calma, a serenidade e a sorrir. Digo tudo isto esforcadamente, respirando o mais profundamente que posso para nao ter de lancar aqui na loja da Timor Telecom um suspiro tao alto que, assemelhando-se a um grito de raiva e de impotencia possa assustar os utentes que se encontram na sala, para alem dos meus antigos colegas da TT que nao tem culpa nenhuma do que esta a acontecer. Nao posso sequer incluir nenhuma foto que descansasse os vossos olhos.

Mas aqui fica a promessa que, mal as coisas - as do acesso a Internet, bem entendido- fvoltem ao normal, anexarei um foto condizente com a beleza deste meu pais em crise ha demasiado tempo e sem que se adivinhe o seu fim. E corrigirei este texto que me surge estranho pela falta de acentos.

Enquanto escrevo passam por mim alguns antigos colegas que me cumprimentam sorridentes e com simpatia. O que me faz recordar a minha saida da empresa ha um ano.

E uma historia engracada mas nao vou conta-la hoje. Um dia respartirei as magoas desse tempo de intolerancia indisfarcada na empresa. Faz parte do passado e hoje conta apenas como experiencia. Tenho para mim que e necessario retirar algo de positivo ate do que e muito negativo.Do tempo em que la trabalhei guardo saudades dos meus colegas timorenses e do que com eles aprendi. Dos outros, nem por isso.

sábado, julho 29, 2006

Amanhã espero estar com melhor disposição!




Não deveria ser assim mas acontece quando temos a cabeça tão cheia de dificuldades que nos fazem minúsculos, impotentes e, contudo, tão atormentados como se dependesse só de nós o salvamento da Nação!
Nessas alturas, é impossível serenar o suficiente para escrever algumas linhas com substância.
Só nos ocorrem factos, coisas, ditos e rumores desagradáveis sobre a situação de crise -
essa palavra na moda que tende a não desaparecer senão quando houver paz no país! - e nada, mas nada surge de agradável para ser dito. A fazê-lo soaria a falso, a fabricação de última hora e eu não primo pela mascarada de sentimentos.
Tudo isto apenas para dizer que tem razão de ser a minha ausência do lado de cá do Mundo que é tão belo, tão exótico e era tão tranquilo! Tão tranquilo…
Não me sobra imaginação para transmitir a natureza mágica deste meu sofrido país! Minto: sobra-me ainda um pedacito. O suficiente para dizer que Timor-Leste é um dos últimos paraísos da Terra mas nós, timorenses, não temos capacidade para aguentar com a beleza que Deus colocou no nosso caminho e preferimos viver em conflito constante; um dia destes, quando acordarmos, teremos um inferno em vez de país!
Amanhã espero estar com melhor disposição!


quarta-feira, julho 26, 2006

Melhores dias virão!


O atraso da minha presença ontem deve-se à falta de energia eléctrica. Eram seis horas da tarde quando ela, a energia, se finou por um período bem longo. Dezoito horas!!!
E, sem luz…
Ontem fui a um jantar bem agradável. Se não fosse de alguma cerimónia, tinha-me abalançado a dar um pezinho de dança. Mas, há momentos em que é necessário deixar passar a imagem de que somos pessoas muito sérias, respeitáveis, daquelas que sorriem em vez de rir – quero dizer, fazem um trejeito… - , das que sabem estar em qualquer lugar, a qualquer hora… Uns senhores!
E eu, quando é preciso, sou uma artista senhora! Assim, dancei na minha cabeça. Bailei a rumba, a valsa e o tango. Ginguei, abracei-me ao meu par, dancei, dancei, dancei…
Digo no blogue do Público que até me pareceu que a vida decorria calma. É verdade, senti-me bem, calma. Foram só duas horas, mas soube bem.
E agora, é rezar, pedir a Deus que tudo volte a estar como dantes, quando podíamos percorrer Timor-Leste de lés a lés sem medos que um tiro perdido nos partisse o vidro ou nos levasse para outro mundo.
Há cinco minutos, estava pessimista, mas já acordei: acho que não devo perder o optimismo.
Afinal, se nós timorenses não acreditarmos no futuro risonho do nosso país, quem irá acreditar?

PS: amanhã acrescento a foto. Hoje, o computador deve ter enlouquecido e não me permite fazê-lo.
O mano Manuel está melhor


segunda-feira, julho 24, 2006

Domingo à tarde


Apesar do calor da tarde, eu e o João, meu marido, fizemo-nos a caminho e fomos à inauguração do Comité Olímpico Nacional de que é presidente o meu irmão João.
Gostei da cerimónia e senti-me muito orgulhosa ao ouvir falar o meu irmão.
É que a construção do país não se faz só pela via política nem vive só de estrelato. O João percebeu isso, o que talvez ainda o torne mais respeitado no campo político. E eu, naturalmente, fico feliz; mais palavras para quê, é um timorense e é meu irmão!
No regresso a casa demos com o sol a desaparecer na linha do horizonte. Ia a caminho das vossas bandas. A esta hora, embora aqui estejamos quase num pôr-do-sol de um outro dia, ainda dá para vos dizer, aos daí que acordam tarde, bom dia!

sábado, julho 22, 2006

De novo, Saudades!


Qualquer reunião familiar corre o risco de ser considerada uma festa.
Somos muitos, somos barulhentos, bem dispostos e adoramos conviver e conversar horas a fio. E mesmo quando o ambiente não é dos melhores – como acontece agora – temos de encontrar-nos para trocar impressões sobre a situação, sobre as nossas vidas.
Quando estávamos todos em Lisboa, logo a seguir a 1975, costumávamos reunir-nos no vale do Jamor, que acolheu os refugiados timorenses e onde vivia a mana Dora, a nossa irmã mais velha bem como alguns dos meus sobrinhos. Os meus outros irmãos refugiados viviam em pensões disponibilizadas pelo IARN.
Nessa altura, a vida era muito difícil. Mas nós, sempre tivemos um jeito especial para relativizar os nossos problemas… e, juntamente com os nossos pais (somávamos já mais de uma trintena em Lisboa) nunca perdemos o hábito que havíamos herdado da casa em Timor; aos domingos, reuníamo-nos para as conversas costumeiras e fazíamos a festa com um franganito, um arroz e um modo fila.

Dos doze irmãos, os manos Manuel e Mário eram os únicos que estavam em Timor e na Indonésia. Sentíamos a sua falta, até porque não era nada fácil saber deles. Os outros dez estavam em Portugal.

Mas desde 1956 que nunca mais nos juntámos na totalidade. E temos até uma fotografia dessa altura de que vos mostro uma cópia velhinha.
Escondemos do nosso pai a morte inexplicada e estranha do nosso sobrinho Marito, ocorrida em Jacarta.
A vida deu outras tantas voltas, faleceram os meus pais e a minha Dora. E nós fomo-nos espalhando por esse Mundo de Deus mas continuámos com o nosso velho hábito de nos juntarmos e conversarmos sobre os assuntos mais diversos. É bom dizer que, “filho de peixe sabe nadar” e nós não fugimos à regra: gostamos de falar alto, politicar, debater tudo, discutir e defender apaixonada, acalorada e convictamente as nossas opiniões.
Nunca perdemos o contacto. O meu irmão João criou uma linha na Internet para a família. Assim, estando ausentes, a milhares de quilómetros uns dos outros, todos sabemos o que se passa com cada um de nós.
Sei que a minha família que está fora de Timor, está a ler e a sorrir com as recordações que estas linhas lhes trazem.
Sei que ninguém esqueceu que, após as nossas longas e intermináveis conversas, precisamos sempre de qualquer coisa para aquecer o estômago. É da praxe. Pode ser um café. Pode estar calor ou frio. Mas lá qualquer coisinha para aquecer o estômago, retemperando porventura as nossas forças para mais uns dedos de conversa, isso é trigo limpo… tem de haver.
E podem ser duas, três horas da manhã, a dona-de-casa ausenta-se e aparece pouco tempo depois com uma panela fumegante. É o que nós chamamos”caldo”, com legumes (poucos), um pedacito de carne ou de chouriço, temperos diversos, por vezes uns ovitos batidos em espuma. Juro que aquece até a alma!
Foi o que fizemos ontem à noite aqui em casa.
Logo, jantaremos em casa da Natália. Não sei a que hora acabará a reunião familiar. Mas tenho a certeza de que não sairei da casa dela sem o meu estômago aconchegado por um caldinho quente!

quinta-feira, julho 20, 2006

Férias adiadas


Estava a pensar ir de férias em Setembro até Lisboa, matar saudades dos amigos e da cidade. Comprar uns livros, ver as modas, visitar as catedrais do consumo… Mas as aulas vão recomeçar em Setembro – o que é sinal de que as coisas estão a compor-se - e lá se vão as apetecidas férias! Paciência, fica para mais tarde.
Em todo o caso, vai fazer-me bem voltar a embrenhar-me nos estudos. Sinto falta de algo que me ocupe melhor o tempo.
Vamos lá a ver se consigo concentrar-me! Se não houver mais percalços pelo caminho, quando fizer 60 anos, terei o curso completo. Bem, o melhor é nem pensar nisso. Ainda faltam cinco anos e eu não quero perder a vontade de estudar só de pensar que cinco anos são 365 dias vezes cinco… Mas é o que irá acontecer-me se começar a pensar que o curso-dura-cinco-anos. É muito tempo, caramba! Pronto: mais vale pensar em “um dia de cada vez”. Isso já resulta!
Todos os dias saio de casa. Passo pela marginal para ver o mar. O mar faz-me bem. Tranquiliza-me. Muitas das vezes bem me apetecia saltar do carro e meter-me na água. Mas, enfim, há que ter cautela. Impõe-se que seja cuidadosa!
Raios, nunca se pode ser absolutamente livre e espontânea!
Como quase sempre me apetece fazê-lo, vou visitando algumas capelinhas, que é como quem diz, vou a casa da minha irmã Natália, dos meus sobrinhos-netos, dos meus irmãos João, Mário e Manuel.
A propósito, o mano Manuel melhorou ligeiramente. Ainda não sai do quarto, sente-se um bocado cansado. Mas está melhor. Graças a Deus!

terça-feira, julho 18, 2006

O Tempo

Quando não há mais nada para se dizer fala-se do tempo… não é assim?
Pois, o tempo está mais agradável, menos quente, menos húmido. Bom para a praia, para um piquenique, para não nos esquecermos de como este é um belo país se olharmos as paisagens que mudam em cada curva de estrada.
Há “tempo para amar” e “tempo para morrer” . Eu quero ficar pela primeira hipótese! Depois daquela experiência em que me vi reduzida à mais ínfima condição da classe inferior do medo, os medricas, nem quero pensar em morrer que a vida é que é bonita e boa para amar… Quando há tempo, pois…
Tempo é pretexto para recordar que a maldita situação criada sabe-se lá por quem, não nos permite planear coisa nenhuma que ultrapasse os dez, quinze quilómetros em redor da cidade. Mais longe é melhor não, diz quem percebe dessas coisas.
Cheira-se no ar, pressente-se alguma coisa. Mas o quê? Eu já não cheiro nem pressinto nada de estranho, porque tudo está estranho, tudo mudou… nada é o que era dantes. Nem eu, que devido à situação criada, à insegurança, deixei de fazer as minhas caminhadas pelas seis da manhã, com a minha sobrinha Tininha e, como resultado, engordei, pois claro! Pois se o tempo, a situação, a crise, a insegurança, etc., etc., me não permitem derreter as calorias que vou somando o dia todo! Não consigo emagrecer! Raios!
O tempo, o tempo, o tempo… Uma vida!

Gazeta a metro!


Tenho andado a fazer alguma gazeta! É que nem sempre há disposição para escrever dois textos diferentes. Eu bem queria ser como o Marcelo Rebelo de Sousa que escreve em simultâneo e com as duas mãos dois textos totalmente diferentes conforme a mão de onde sai uma ou outra ideia … É obra, caramba! Queria mas, não sou… Há que ter noção da nossa importância no Mundo! Mesmo que o Mundos seja uma página do blog.
Estou mais descansada. O mano Manuel veio hoje para casa! Graças a Deus!
Politicamente, parece que as coisas estão a entrar nos eixos. Espero que seja para sempre! É que também estou um bocado farta de estar circunscrita à cidade que, ainda por cima, é o sítio mais feito de Timor!
Vamos a ver se este fim-de-semana podemos ir dar um mergulho, melhor, fazer um piquenique na praia dos portugueses, para lá do Cristo-Rei!

Como ainda não estou refeita da gazeta, vou ficar por aqui. Amanhã, há mais!

sábado, julho 15, 2006

Ainda o mano Manuel


O mano Manuel é um sedutor! Apesar das barbas brancas! Só isso explica que tenha havido mais comentários aqui no blog que o normal! Mas ele merece!
É um bocado criança, por vezes. E teimoso também. Hoje, queria baldar-se do hospital para vir tomar banho a casa! Ficou amuado porque os mécicos lhe fizeram cara feia. Nós respirámos fundo! Alguém o pôs em sentido!
Há semanas, quando Díli estava ao rubro, fez numa só noite, 150 quilómetros. Percorreu a cidade, procurando notícias dos milhentos amigos que tem espalhados pelos mais diversos bairros de Díli. Só depois de saber que todos estavam vivos, foi dormir...
O mano Manuel está melhor mas vai manter-se internado até que a tensão estabilize. Eu, deste canto, agradeço o carinho de todos, Transmiti-lhe os vossos desejos. Sorriu de orelha a orelha. Não disse, mas eu acho que ele queria mandar-vos um beijinho, às meninas, e um abraço ao Luís...

sexta-feira, julho 14, 2006

Mano Manuel


O meu irmão Manuel, o das longas barbas que aqui se vê recebendo comovido um abraço de um dos mais de cem afilhados, adoeceu. Está internado no hospital.
Como já dei conta do ambiente do hospital nacional no blogue do lado, o do Público, hoje fico-me por aqui.
Estamos todos preocupados com a saúde do nosso mais velho. Ninguém gosta de o ver acamado. E todos nós, os irmãos, netos, bisneto, sobrinhos, enfim todos os mais de duzentos seres que constituem a nossa vastíssima família espalhada por esse mundo de Deus, o que quer é que ele fique bom rapidamente!
Deus nos oiça e nos atenda depressa!

quarta-feira, julho 12, 2006

A anormalidade dos nossos dias normais

A vida tende a normalizar-se. Não é bem o normal a que estávamos habituados. Sempre há quem roube, quem queime, quem atire uma pedra…
Assim será por muito mais tempo.
Ontem, fez anos a minha irmã Aurete. Juntámo-nos vinte e duas pessoas à volta de um caril e de uma saborosa feijoada, mousse de chocolate, surpresa da Xana, bolo de aniversário… delícias que servem de pretexto para animada conversa. Tudo acompanhado de uma saborosa sangria.
Só que em cada 10 minutos de conversa, se meio minuto é conversa animada, tudo o mais se faz à volta da situação de crise… Fatal como o destino!
A noite terminou sem problemas, com cada um a recolher a casa nos vários cantos da cidade.
Mas, para que os homens e as mulheres se lembrem de que nada são favas contadas - nem a paz e a tranquilidade o são! - esta tarde, numa zona segura, lá para os lados da rua das embaixadas, partiram o vidro traseiro do carro do meu marido!
São assim, com acontecimentos destes que já nem são surpreendentes, os nossos dias normais…

terça-feira, julho 11, 2006

Casas de Lospalos

A caminho de Tutuala, ainda se vêem algumas destas elegantes casas.
No tempo da ocupação, os indonésios esforçaram-se e quase conseguiram acabar com elas. Era preciso mostrar ao Mundo que Timor era desprovido de culutra, de identidade própria.
A exemplo das casas, também as gentes de Lospalos são altas, elegantes, bonitas.Dizem que vieram da Indochina. Outros defendem que são provenientes da Índia... Não sei donde vieram, mas que têm traços fisionómicos diferentes, lá isso têm...
Há poucas casas mas, depois da independência tem havido um esforço para as reabililtar. Só que agora já ninguém quer fazer delas a sua morada. É pena!



segunda-feira, julho 10, 2006

Engenho e Arte

Num passeio ao Suai, parámos no alto da montanha. A paisagem lindíssima que se vê daquela imponente e misteriosa montanha deixa sem fala qualquer ser humano. Só apetece ficar ali, em contemplação, à espera que o tempo passe devagar… que não se quebre o encanto!
Deve ter sido com a inspiração transmitida pelos fluidos da mãe Terra que esta criança, sem nada que não o engenho e a arte construiu esta engenhoca para ir buscar a água necessária para a sua cabana.
É em momentos desses que faço todos os bons propósitos para pôr de parte os gestos consumistas que tantas vezes me atacam e do qual não me importo nada ter de reconhecer que me cobrem de vergonha!
Afinal, com muito pouco, ou melhor, sem quase nada, uma criança sorri…

domingo, julho 09, 2006

Receios e distracção

Este é mais um fim-de-semana sem praia nem montanha.
Os tempos estão difíceis e, embora a informação oficial seja a de que tudo voltou ao normal, as pessoas ainda têm algum prurido em retornar à normalidade, passear para longe de casa.
Eu faço parte do grupo de medrosos. Bem, acho que não devia ter utilizado essa palavra. É um bocado forte e não é politicamente correcta! Vou substituí-la por receosos. Medo ou receio, estou atacada. Estou medrosa, receosa. Não vale a pena disfarçar! Mas, está bem: Faço parte do grupo dos receosos. Assim está mais leve. Não tão leve que me leve a dizer que estou na maior! Isso seria ainda menos politicamente correcto por ser uma boa treta!
Ainda por cima uma enxaqueca das antigas estragou-me o fim de tarde. Eu bem queria fazer como na semana passada. Ir com o João olhar o mar da Areia Branca, ver Díli do outro lado da cidade. E depois rumar a Taci Tolu. Ver o sol a pôr-se por detrás da ilha de Alor e olhar a cidade deste lado. Amanhã, se tudo correr bem, lá iremos. A Areia Branca e Taci Tolu estão dentro dos limites possíveis. Persistem porém, algum, pouco medo, algum, pouco receio… mas sempre dá para desanuviar. Talvez contribua para que eu não me distraia e coloque duas vezes a mesma foto no blog. Vou substituir a de antes de ontem.

sexta-feira, julho 07, 2006

Pronto! Perdemos! Eu sei.



Pronto! Perdemos! Eu sei. Mas perdemos injustamente. O árbitro roubou-nos de forma indecente!
Eu vi!
Nós jogámos melhor!!!
O golo deles nem sequer foi muito festejado. O Zidane nem saltou, nem correu desenfreado pelo campo… Falta de saltos, de gritos, sinal de que eles sabiam que não tinha havido penalty nenhum!
Eu vi!
Deu-me uma grande fúria, fui para a cozinha e desforrei-me com um papo-seco quentinho, acabadinho de cozer no forno. Com muita manteiga, porque o organismo estava a pedir. E quando o organismo pede…
Não se esqueceram que agora sou padeira amadora, pois não? Ainda não sou padeira de Aljubarrota… Mas ontem à noite, bem podia ter sido padeira-de-Aljubarrota-em-Munique. E vingar-me naquele árbitro suburbano e sem qualidade! E dar-lhe no coco! Bandido do árbitro!!!
Ao menos uma vez, tenho de escrever: Viva Portugal!
Daqui a quatro anos… esperem pela pancada!


quarta-feira, julho 05, 2006

Esquerda, Direita volver!


Casa típica do Suai, lá bem junto à fronteira com o Timor indonésio. Reparem no pormenor da decoração, com esteiras coloridas a enfeitar a casa e a dar também alguma privacidade aos seus moradores.
Hoje estava na disposição de contar uma grande história, mas o tempo urge. Vou ter de ajudar uma amiga, simpatizante da FRETILIN num trabalho urgente de escrita.
E isto dá-me de repente uma grande vontade de me rir, porque há quem pense que aqui, deste lado do Mundo - que é o vosso outro lado - os da oposição e os da FRETILIN nao se podem nem ver.
Para além de que pensam que andamos todos à estalada!
Porque, se não andamos à pancada e aos insultos, se não viramos a cara ao do outro partido, estamos feitos uns com os outros, pela certa!
Fez-se luz! Então, eu estou feita convosco! Será???!!! Mas isso não é politicamnte correcto, pois não?
Ivonita, Leonor e Ana Cardoso Pires, está-me cá a parecer que um dia temos nós de andar à pancada! É que, não é por nada, mas vocês são muito de esquerda!
Bem, de vocês as três, tenho mais medo - confesso - da ginasticada Leonor...
Mas, então não é que reparei de repente que a maioria dos meus amigos é toda de esquerda!!! Pode lá ser!!!
Mas é verdade! Ele é o Paulo M., o Carlos P. o João R.A, mais duas outras Anas, o Agualusa, o Torcato S., o Jorge W., o Adelino, o António M. o Pedro C.R. entre tantos outros!...
Salvam-se a Anabela, que não é tão de esquerda e o João C. que não é nada de esquerda!!
Meu Deus! Estou perdida!

terça-feira, julho 04, 2006

Praia de Comoro

Bonito, não é?
Em tempo de calmaria política, sem desordeiros e incendiários à solta, este era o meu destino, manhã cedo, pelas 6H30...
Como hoje foi um dia calmo, pode ser que seja um bom prenúncio para a tranquilidade que se deseja para Timor. Quero acreditar que os dias de calma voltarão em breve! Querem vir à praia?

domingo, julho 02, 2006

Futebol e flores

Não sou demasiado doente pelo futebol, mas não dispenso ver um bom jogo. Sei que o amor ao futebol levado ao extremo é doença grave! Bem, não sou delirante mas, se calhar, o melhor é assumir que sou um bocado doente… sofro naquela hora e meia que parece-durar-uma-eternidade, insulto o árbitro – acho sempre que ele está contra nós, aliás, acho que o Mundo está todo contra nós! – faço figas, levanto-me vezes sem conta, bebo água, enfim, essas milhentas coisas que os doentes do futebol fazem! Perde-se um bocado o tino, é verdade! Mas não me dá para bater em ninguém se perder o jogo! Eu sei ganhar e perder!
Estou de acordo que há coisas bem mais importantes que o futebol e que a vida continua independentemente do resultado de um jogo.
Quando era miúda, em casa dos meus pais, toda a família torcia pelo Benfica.
O meu pai, quando o Benfica perdia, era certo e sabido que dizia que o café estava mal feito! Essa doença ainda hoje nos ataca. Continuamos a discutir acaloradamente com os familiares que se nos juntaram pelo casamento e que são do Sporting, do Belenenses ou do Porto.
Se o futebol aliena, não é menos verdade que também distrai. Por exemplo, agora que a situação em Timor-Leste está da maneira que se sabe, com insegurança, saques, incêndios, tudo a acompanhar um longa crise político-militar que não aproveita nada nem ninguém, assistir a um jogo e torcer por uma equipa, ajuda-nos a esquecer - pelo menos durante o tempo que dura o jogo – a difícil situação que vivemos!
Mas se eu sou doente pela bola, também compreendo que haja quem não goste! E como ontem já tive uma prenda com os três penalties defendidos pelo Ricardo, hoje ofereço flores: envio estas flores aos meus amigos/amigas não-amantes do futebol, em especial para a minha querida e arredia amiga Ivone Ralha!

VIVA PORTUGAL!!!

Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!Viva Portugal!!!

sábado, julho 01, 2006

Saudades!

Quando eu era jovem, adorava ir à praia com as minhas irmãs e sobrinhos a que por vezes, também se juntavam algumas amigas escolhidas a dedo pelo crivo rigoroso dos nossos exigentes pais e irmãos mais velhos. Nas manhãs de domingo, aí pelas 8 horas, lá íamos nós, radiantes, gozar as delícias do mar azul, de águas quentes da praia de Lecidere.
Era só atravessar uma rua, mas a verdade é que não era muito do agrado do nosso pai a nossa ida à praia, pelo que nos habituámos a ser sempre acompanhadas por familiares ou amigas bem mais velhas.
Às vezes, como é natural em todos os jovens, a distracção tomava conta de nós, especialmente quando a conversa estava mais interessante. Bem, nós não usávamos relógio… O sol fazia as vezes desse incómodo objecto utilitário… Outras tantas vezes embora soubéssemos bem que eram horas de voltar, esticávamos o mais possível a permanência naquela praia e fazíamos ouvidos de mercador aos avisos dos mais velhos. Também não ignorávamos que havia castigo sempre que prevaricávamos…
Se havia coisa que os meus pais não perdoavam, era não estarmos todos sentados à mesa à hora da refeição.
Eu explico melhor. Penso que a nossa mãe é que não gostava nada das nossas ausências mas, porque era muito nervosa e viveu sempre cheia de mimo dado pelo nosso pai, entregava-lhe a dura tarefa de nos meter na ordem. E ele, que não permitia nenhuma falta de respeito à mamã, era sempre muito severo com as nossas alegadas faltas de educação à sua adoradíssima mulher e nossa santa mãe. Também acho que ele se fazia mais surdo para não ouvir as nossas asneiras e mais distraído para fingir não ver as nossas falhas… afinal, havia sempre alguém atento…
Bem, havia que preservar o espírito da coisa. A refeição era tempo de conversa, de alegria, de troca de impressões, de histórias, e eles não gostavam nada que uma qualquer alteração viesse pôr em causa a ordem determinada, com imposição de silêncio e de uma sensação de mal estar que durava , convém dizê-lo – uma horita ou duas, findo o que tudo voltava ao normal. Castigo, em primeiro lugar, gelado horas mais tarde para retornar à tranquilidade.
O almoço reunia a família toda em duas grandes mesas. Éramos muitos e por isso havia uma para os adultos, outra para as crianças. Feijoada era o prato de domingo. Muito arroz branco, muito modo fila. E muita algazarra como ruído de fundo. E, depois, de acordo com a época do ano, ananás, mangas, tomates arbóreos. E sempre, bananas e papaias. De seguida, uma chávena de café fechava com chave de ouro os almoços e os jantares na nossa casa.
Éramos uma família feliz. Apreciávamos a vida em comunidade. Adorávamos conversar, conviver.
Hoje, estamos espalhados pelos quatro quantos do Mundo. Cada um constituiu a sua família.
Aqui em Timor, em tempo de paz, ainda nos juntamos todos. E como continuamos a ser muitos, qualquer reunião familiar até tem o ar de festa.
Agora, com a crise, não há ambiente para grandes ajuntamentos. Mas mantemos o contacto através do telefone. Com os familiares que estão longe, em Portugal, Austrália, Estados Unidos da América ou Cabo Verde, usamos a Internet. Criámos uma linha especial para asseguramos o contacto essencial para não deixarmos esmorecer os nossos laços afectivos.
Tenho a certeza de que a seguinte expressão é comum a todos nós, irmãos e sobrinhos: Ai que saudades tenho da minha meninice e adolescência…