sábado, julho 22, 2006

De novo, Saudades!


Qualquer reunião familiar corre o risco de ser considerada uma festa.
Somos muitos, somos barulhentos, bem dispostos e adoramos conviver e conversar horas a fio. E mesmo quando o ambiente não é dos melhores – como acontece agora – temos de encontrar-nos para trocar impressões sobre a situação, sobre as nossas vidas.
Quando estávamos todos em Lisboa, logo a seguir a 1975, costumávamos reunir-nos no vale do Jamor, que acolheu os refugiados timorenses e onde vivia a mana Dora, a nossa irmã mais velha bem como alguns dos meus sobrinhos. Os meus outros irmãos refugiados viviam em pensões disponibilizadas pelo IARN.
Nessa altura, a vida era muito difícil. Mas nós, sempre tivemos um jeito especial para relativizar os nossos problemas… e, juntamente com os nossos pais (somávamos já mais de uma trintena em Lisboa) nunca perdemos o hábito que havíamos herdado da casa em Timor; aos domingos, reuníamo-nos para as conversas costumeiras e fazíamos a festa com um franganito, um arroz e um modo fila.

Dos doze irmãos, os manos Manuel e Mário eram os únicos que estavam em Timor e na Indonésia. Sentíamos a sua falta, até porque não era nada fácil saber deles. Os outros dez estavam em Portugal.

Mas desde 1956 que nunca mais nos juntámos na totalidade. E temos até uma fotografia dessa altura de que vos mostro uma cópia velhinha.
Escondemos do nosso pai a morte inexplicada e estranha do nosso sobrinho Marito, ocorrida em Jacarta.
A vida deu outras tantas voltas, faleceram os meus pais e a minha Dora. E nós fomo-nos espalhando por esse Mundo de Deus mas continuámos com o nosso velho hábito de nos juntarmos e conversarmos sobre os assuntos mais diversos. É bom dizer que, “filho de peixe sabe nadar” e nós não fugimos à regra: gostamos de falar alto, politicar, debater tudo, discutir e defender apaixonada, acalorada e convictamente as nossas opiniões.
Nunca perdemos o contacto. O meu irmão João criou uma linha na Internet para a família. Assim, estando ausentes, a milhares de quilómetros uns dos outros, todos sabemos o que se passa com cada um de nós.
Sei que a minha família que está fora de Timor, está a ler e a sorrir com as recordações que estas linhas lhes trazem.
Sei que ninguém esqueceu que, após as nossas longas e intermináveis conversas, precisamos sempre de qualquer coisa para aquecer o estômago. É da praxe. Pode ser um café. Pode estar calor ou frio. Mas lá qualquer coisinha para aquecer o estômago, retemperando porventura as nossas forças para mais uns dedos de conversa, isso é trigo limpo… tem de haver.
E podem ser duas, três horas da manhã, a dona-de-casa ausenta-se e aparece pouco tempo depois com uma panela fumegante. É o que nós chamamos”caldo”, com legumes (poucos), um pedacito de carne ou de chouriço, temperos diversos, por vezes uns ovitos batidos em espuma. Juro que aquece até a alma!
Foi o que fizemos ontem à noite aqui em casa.
Logo, jantaremos em casa da Natália. Não sei a que hora acabará a reunião familiar. Mas tenho a certeza de que não sairei da casa dela sem o meu estômago aconchegado por um caldinho quente!

2 comentários:

luis disse...

ola angela todas as suas colunas me serprende,comentar esta não sou capaz.fico sempre a pensar como uma algarvio depurtado e uma senhora de venilale com a benção dee alguem todo poderoso constituiram uma familia numerosa. esta visto que os carrascalões não nascem mas sim mutiplicam-se.(onde é que eu já li esta frase ???)adeus ate amanhã manufuik

AnadoCastelo disse...

Pois é lindinha oa hábitos familiares nunca se perdem. Lá temos o nosso provérbiozito de que "o sangue chama". E felizmente para vocês, que se deram sempre bem e sempre foram unidos, o que não acontece em mtas famílias numerosas que cada um vai para seu lado e nunca mais se veem. Aproveita bem essa vossa tradição familiar para que nunca se perca.
Jokinhas